Arquivo do mês: abril 2010

OLHOS EM FÚRIA

Um componente estranho e instigante do nosso corpo que vem chamando atenção como objeto estético figurativo é o olho. Podemos nos deparar com ele grafitado em ruas sujas, exposto em galerias sofisticadas de arte surrealista, esotérico em filmes experimentais, em forma de símbolo mítico de religiões orientais e civilizações antigas, em ilustrações, teorias físicas, crenças, e por aí vai. Mesmo em contextos embaraçosos, esse órgão quando transformado em símbolo nos desencadeia uma série de reações variadas, podendo fascinar ou até mesmo causar um certo incômodo.

Quando os significados e sentidos desse órgão-símbolo são analisados podemos ter uma interminável lista de interpretações. O assunto é tão vasto que na busca de informações sobre ele corremos o risco de tropeçar até mesmo em paradoxos relacionados aos cosmos.Na astronomia, por exemplo, a nebulosa hélice, também conhecida como Eye of God, tem a incrível forma do olho. Do universo para a própria noção de vida (sendo um órgão sensorial) podemos criar uma cadeia de compreensão em torno dele.

Helix Nebula

O ilustrador Mark Brown narra historinhas meigas e olhos furiosos aparecem em todos os cantos. O olho funciona como um porta-voz do inconsciente e do sonho que latejam sobre as criaturas e cores sombrias dos desenhos. Quando os olhos se fecham, é como se a porta para o real fechasse e a que se direciona para o surreal dos contos abrisse.

Bearing Gifts

Greta’s street

In a big white hat

The lost parade

Willy gets a grenate

A proposta do surrealismo como um simulacro (uma cópia mal feita) da arte faz criar em nossas mentes insanas associações entre o artificial e o real. Nesse sentido,  existe um fascínio surrealista com o olho,  mergulhando além da complexidade óptica, sendo que ao mesmo tempo que ele serve como um dispositivo para ver, se transforma em objeto para ser visto. Dentre os inúmeros significados criados em torno desse órgão tão enigmático, em “Un Chien Andalou” (1929), clássico cult de Dali e Luis Bañuel, o olho é mostrado em imagens que irão agredir o olhar  do espectador, de modo que no momento em que ele é mutilado ocorre uma inversão de perspectiva, de quem vê  para o que vê e do que é visto, ele perde assim sua função e se alastra em outros níveis de significado. Desse modo, ele pode  ser interpretado como uma parte do corpo que consegue se emancipar, viver independente das outras,  aliar-se à imaginação e se assumir como objeto e sujeito.

Em Indestructible Object de Man Ray, existe uma sincronia entre o tempo e a visão. Um recorte de um olho é colocado em um metronomo,o qual a intervalos regulares  marca as passagens do olho. Enquanto o tempo oscila, no mesmo compasso o olho se move se transmutando em um ritmo de escuridão-visão-escuridão-visão. Um piscar de olhos se torna um intervalo de tempo em movimento.

O olho poderia ser concebido como a representação de algo desencarnado, desterritolizado do corpo. Esse seu papel foi justificado nas questões analíticas de percepção e nas irracionais de instinto e imaginação humana. Magritte, pintor surrealista que tem o olho na sua simbologia de subconsciente, nos mostra implicitamente que o olho é uma representação do mundo real mas sua realidade em si transcede isso, pois ele é o único capaz de enxergar os fenômenos do mundo e poderia trapacear, nos enganar com o que supomos estar vendo. Se o olho é mesmo capaz de fazer isso, de se dissociar do corpo, do que o transporta, ele transita entre o real e o que é refletido à nós, entre e óptico e o artificial.

The False Mirror – Magritte

The Eye of time – Dali

Dali

The anxious object

Object – Clauden Cahun

Dali

Dali


Um dos mitos mais famosos que figura o olho como símbolo  é sobre o Olho de Hórus,que carrega consigo o significado de Poder e Morte em torno da divindade do Deus Egípcio.O Olho de Horus junto a serpente Anaconda são os amuletos mais poderosos e utilizados no Egito. O olho esquerdo de Hórus simbolizava o Céu e o direito, o inferno. Quando Hórus lutou, em vingança pela morte de seu pai, contra Seth, teve seu olho esquerdo arrancado, então usava o amuleto do mesmo (que ainda não lhe dava uma visão  total) colocando também a serpente enroscada sobre a cabeça. A partir de então, a serpente passou a simbolizar o poder real e o olho, indestrutibilidade. Tanto que os faraós passaram a maquiar seus olhos com o olho de Hórus a ter serpentes esculpidas na coroa.

Nas tradições neopagãs ele tem como função primordial favorecer a ‘evolução’ do terceiro olho,  sendo utilizado em amuletos,  livros e objetos ritualísticos como símbolo de proteção,  de elevação da sensibilidade energética e acima de tudo como um emblema.  A crença do terceiro olho é fascinante, ele é indicado como um sinal da visão que ilumina.  É o sexto dos sete chakras da Kundalini Yoga.  Sua localização está entre as sobrancelhas, 3 cm acima da raiz do nariz. Também pode ser relacionado à glândula pineal, considerada por algumas correntes esotéricas como a sede dos poderes psíquicos e paranormais.

Kundalini Yoga e seu menor olho no meio da testa

No Cristianismo o olho rodeado por raios ou inserido num triângulo com vértice para o alto é o símbolo da onipresença divina, a trindade. Em antigas representações podemos ver olhos nas asas de anjos, como símbolo de sua sabedoria penetrante. Na Maçonaria é simbolizado inserido no triângulo e rodeado pela coroa de raios. Lembra aos seus seguidores da sabedoria que penetra todo os mistérios, e também a vigilância do Criador. É o olho da providência. Entre os árabes ele é o símbolo da culpa. É usado para lembrar às mulheres sua posição de fonte de desejo e pecado.

Talismã O Olho de Deus

Como os egípcios, os gregos também empregavam o olho em peças de adornos para absorver vibrações, encobrindo-o de significados e espiritualidade. As pessoas levavam ao pescoço o “Olho Grego”: uma peça de forma redonda, esférica ou achatada, com a íris preta no círculo azul. Tem o poder de afastar a cobiça e os maus sentimentos. Originalmente confeccionado em vidro podia sofrer rachaduras, resultantes da obsorção das más energias.

Olho Grego

Notamos que os olhos, como órgãos externos, tem grande importância na religião, mesmo na semítica, em que há também há o símbolo do olho de deus em torno da pirâmide. Castaneda enfatiza que a principal ligação dos olhos não é com o mundo sensível, e sim com o intento, e chega mesmo a descrever alguns exercícios de mudança de foco e atonalidade afim de suscitar uma quebra na atenção cotidiana, ou estados específicos de atenção mais propícios para conseguir “ver”.

O olho penetra a música, induzindo bandas a o usarem como um ícone, uma figura de identidade ou um abuso de signos expresso em capas, cenários e posters. Em Pulse,  o Pink Floyd engloba o olho no complexo do criacionismo. O surgimento da vida e dos sentidos,  sendo a visão o principal deles, que guia nós seres humanos a perceber o mundo, vê-lo para crer na sua existência.

Aparece em posters do Sonic Youth, de maneira implícita (parece um disco, mas também tem o formato do olho) mas com uma interpretação queaponta para a física. Colorido e composto por linhas que o circulam, remetendo ao processo visual das cores, como percebemos e visualizamos, os objetos só se colorem nesse aspecto empolgante que os vemos graças ao olho e ao cérebro.

O Secret Serpent cria posters agressivos para bandas cabeçudas, com monstros e olhos intrusos em triângulos, no centro da testa e em tornados. Isso encenado com todos aqueles misticismos e tabus já descritos.

E não é difícil notar a tara do Yeah Yeah Yeahs por olhos. Aparecem dependurados no cenário, nos instrumentos, e gritantes  no visual da vocalista Karen O. O olho virou um penduricalho da banda, e é encaixado com vários outros artifícios como sangue,  glitter, cores fluor que dramatizam a perfomance.

O símbolo do Olho Gigante, tema da última turnê da banda, concentrado na inspiração pelas religiões orientais, simbologias e imagens.

Os figurinos escalofobéticos criados por Cristian Joy, olhos preeenchendo mãozinhas em estampas folclóricas e camarões surrealistas, carregados por tribalismo e psicodelia.

Outras bandas que aproveitam do olho humano como objeto de identidade:

Fol Chen

Poster Acid Mother Temple

O olho é,portanto, gigante em seus sentidos. Pode ser ilustrado em seus diversos formatos, receber sentidos estranhos, significados incompreensíveis, descrições cabulosas, formatos agressivos ou despertar sentimentos sutis. Um enigma que desperta tanta curiosidade que acaba se simulando como um objeto.

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GOODALL – MYTHIC ART

Goodall, artista britânico, estava na vanguarda da reinvenção e rejuvenescimento da ilustração no final dos anos noventa e ajudou a pavimentar o caminho para o ressurgimento enorme do meio que temos assistido nos últimos dez anos.  Sua obra emblemática para a revista The Face influenciou tantos criadores de imagem,  que quase se tornou uma escola de ilustração em si. Ele desenvolve seu trabalho sobre materiais que hoje não são tão comuns, o que fornece esse aspecto inusitado nas suas ilustrações e colagens sobre imagem. Além da The Face, que disseminou bastante seu trabalho, ele também já deixou seus traços em revistas como a Big, Eye, Scene, Arena, Dazed and Confused entre outras. Engrenei uma série de posts que pretendo fazer jorrando informações, sobre arte e cultura, com o trabalho dele, que é uma fonte impressionante de inspiração para quem se interessa  por arte e filosofia oriental.

O designer gráfico britânico fez um trabalho magnífico para o Muse baseado nas estrelas, no espaço e na mitologia grega. Nesta imagem de Dione, por exemplo,  ele mistura dois conceitos sobre a deusa das ninfas. Primeiro ele a mostra como figura feminina,  símbolo de fertilidade, considerada pelos gregos antigos como o equivalente de Gaia – a Mãe Terra, depois a representa como uma das luas de Saturno, já que uma das maiores luas de Saturno recebeu o nome da deusa.

Dione’s Rapture

Essa imagem que segue abaixo nomeada “O nascimento de Érebo” já não remete à nenhum planeta. O nome Érebo é na verdade de um vulcão na Antártica, no entanto possui um significado mítico incrível. Filho do Deus Caos, Érebo respresenta a personificação da escuridão e da sombra, o criador das Trevas. Tinha seus domínios demarcados por seus mantos escuros e sem vida, predominando sobre as regiões do espaço conhecidas como “Vácuo” .

The Birth of Erebus

Fumaças coloridas e fantasias cósmicas

Knights of Cydonia


Capa do DVD Invencible

Capa do CD ‘Invencible’

Helm

Pheobe

Rapier Flat

Migrando para uma outra série recente feita por ele,  intituladaPoster Girl nos deparamos com uma mistura de fotografia com ilustrações fantásticas  em cartazes sustentados por corpos audaciosos de modelos.

Nesta imagem a Medusa, figura mitológica grega, é representada como um símbolo do fascínio que a mulher perigosa instiga, por meio do seu olhar fatal e seus cabelos misteriosos. Tinha o poder de petrificar quem olhasse diretamente em seus olhos, o que é remetido na foto pelo olhar enigmático e sedutor. Temida pelos homens, também é vista como símbolo divino de femilidade, por isso o fetiche agressivo de fêmea dominante que se tornou deusa, rompendo a ideia da mulher inocente e submissa. Nas sociedades antigas utilizavam a cabeça da Medusa em cerimônias sagradas, de modo que acreditavam que ela manteria as mulheres a uma distância segura dos homens. No entanto, Goodall faz uma alusão a esse ritual enfatizando a mulher como manipuladora do imaginário masculino.

Seguindo ainda a linha de trabalhos com inspiração mítica, Goodall também cria ilustrações baseadas na arte e na filosofia oriental. As imagens ficam com efeitos alucinantes e com uma simbologia agregada muito forte. Essa série inspirada nas Dakinis mostra bem isso.

Angel of Death

São figuras marcantes no Budismo do Himalaia. Um ser em forma feminina,  geralmente,  de temperamento colérico,  que atua como uma musa para a prática espiritual e mudanças. Normalmente as representações mostram a Dakini como uma figura jovem, nua, o que não se entende como uma imagem sexual – a nudez se refere à natureza, nu da realidade.

Desert Mirror

As dakinis estão associadas à vacuidade, assim sendo elas despertam inúmeras sensações nas atividades iluminadas, pondendo ser pacificadora, magnetizadora,  enriquecedora e destruidora.  Dessa forma, as dakinis unem a vacuidade com a sabedoria. Ao contrário de que muitos pensam, uma dakini não possui seu significado maior associado as atrações físicas da mulher, de modo que ele vai muito além disso.  Elas se movem livremente num espaço situado além de pensamentos e fabricações, este sendo o estado de consciência que está sob controle, estável e livre.

Love versus Lust

Nessa imagem Godall representa a luta humana entre o amor altruísta, a compaixão e a pureza contra nossos desejos a base de luxúria, paixão e ambição. Nela, para delinear bem esse combate que todo ser humano tem em dentro de si, ele usa a serpente de um lado, representando a tentação, segundo a iconografia cristã e de outro lado ele contrapõe com a figura de dois pavões juntos simbolizando o amor puro e incondicional. Os desejos habituais de cobiça e luxúria, em última instância, causam a dor que é representada por suas lágrimas.

Wisdom and learning

Em ‘Sabedoria e aprendizado’ ele usa alguns elementos que representam a sabedoria na iconografia budista tradicional. Como, por exemplo, o livro sagrado, pelo seu óbvio significado de emitir aprendizagem e o sino que libera o som dito para proclamar o vazio da sabedoria que provém da verdadeira natureza da realidade.

Wrath

Por fim, o Wrath no budismo não tem a ver com raiva, mas com o sentimento de ignorância e negatividade que guardamos em certos momentos dentro de nós, como se fosse uma espécie de rancor. Assim sendo, quando uma pessoa encarcera esse tipo de sentimento negativo, ignorante em si, você poderia cortar sua cabeça. A Dakini mostra bem isso com um esqueleto em chamas e uma espada na mão, ou seja, é a atuação da sabedoria na destruição da ignorância. Ela também possui duas cabeças em volta da sua, que assopram fogo para queimar todo o ódio e os sentimentos de negatividade.

Activate

I took only the branches and i dont want to be scared because it was thunder but now is lost here.