OLHOS EM FÚRIA

Um componente estranho e instigante do nosso corpo que vem chamando atenção como objeto estético figurativo é o olho. Podemos nos deparar com ele grafitado em ruas sujas, exposto em galerias sofisticadas de arte surrealista, esotérico em filmes experimentais, em forma de símbolo mítico de religiões orientais e civilizações antigas, em ilustrações, teorias físicas, crenças, e por aí vai. Mesmo em contextos embaraçosos, esse órgão quando transformado em símbolo nos desencadeia uma série de reações variadas, podendo fascinar ou até mesmo causar um certo incômodo.

Quando os significados e sentidos desse órgão-símbolo são analisados podemos ter uma interminável lista de interpretações. O assunto é tão vasto que na busca de informações sobre ele corremos o risco de tropeçar até mesmo em paradoxos relacionados aos cosmos.Na astronomia, por exemplo, a nebulosa hélice, também conhecida como Eye of God, tem a incrível forma do olho. Do universo para a própria noção de vida (sendo um órgão sensorial) podemos criar uma cadeia de compreensão em torno dele.

Helix Nebula

O ilustrador Mark Brown narra historinhas meigas e olhos furiosos aparecem em todos os cantos. O olho funciona como um porta-voz do inconsciente e do sonho que latejam sobre as criaturas e cores sombrias dos desenhos. Quando os olhos se fecham, é como se a porta para o real fechasse e a que se direciona para o surreal dos contos abrisse.

Bearing Gifts

Greta’s street

In a big white hat

The lost parade

Willy gets a grenate

A proposta do surrealismo como um simulacro (uma cópia mal feita) da arte faz criar em nossas mentes insanas associações entre o artificial e o real. Nesse sentido,  existe um fascínio surrealista com o olho,  mergulhando além da complexidade óptica, sendo que ao mesmo tempo que ele serve como um dispositivo para ver, se transforma em objeto para ser visto. Dentre os inúmeros significados criados em torno desse órgão tão enigmático, em “Un Chien Andalou” (1929), clássico cult de Dali e Luis Bañuel, o olho é mostrado em imagens que irão agredir o olhar  do espectador, de modo que no momento em que ele é mutilado ocorre uma inversão de perspectiva, de quem vê  para o que vê e do que é visto, ele perde assim sua função e se alastra em outros níveis de significado. Desse modo, ele pode  ser interpretado como uma parte do corpo que consegue se emancipar, viver independente das outras,  aliar-se à imaginação e se assumir como objeto e sujeito.

Em Indestructible Object de Man Ray, existe uma sincronia entre o tempo e a visão. Um recorte de um olho é colocado em um metronomo,o qual a intervalos regulares  marca as passagens do olho. Enquanto o tempo oscila, no mesmo compasso o olho se move se transmutando em um ritmo de escuridão-visão-escuridão-visão. Um piscar de olhos se torna um intervalo de tempo em movimento.

O olho poderia ser concebido como a representação de algo desencarnado, desterritolizado do corpo. Esse seu papel foi justificado nas questões analíticas de percepção e nas irracionais de instinto e imaginação humana. Magritte, pintor surrealista que tem o olho na sua simbologia de subconsciente, nos mostra implicitamente que o olho é uma representação do mundo real mas sua realidade em si transcede isso, pois ele é o único capaz de enxergar os fenômenos do mundo e poderia trapacear, nos enganar com o que supomos estar vendo. Se o olho é mesmo capaz de fazer isso, de se dissociar do corpo, do que o transporta, ele transita entre o real e o que é refletido à nós, entre e óptico e o artificial.

The False Mirror – Magritte

The Eye of time – Dali

Dali

The anxious object

Object – Clauden Cahun

Dali

Dali


Um dos mitos mais famosos que figura o olho como símbolo  é sobre o Olho de Hórus,que carrega consigo o significado de Poder e Morte em torno da divindade do Deus Egípcio.O Olho de Horus junto a serpente Anaconda são os amuletos mais poderosos e utilizados no Egito. O olho esquerdo de Hórus simbolizava o Céu e o direito, o inferno. Quando Hórus lutou, em vingança pela morte de seu pai, contra Seth, teve seu olho esquerdo arrancado, então usava o amuleto do mesmo (que ainda não lhe dava uma visão  total) colocando também a serpente enroscada sobre a cabeça. A partir de então, a serpente passou a simbolizar o poder real e o olho, indestrutibilidade. Tanto que os faraós passaram a maquiar seus olhos com o olho de Hórus a ter serpentes esculpidas na coroa.

Nas tradições neopagãs ele tem como função primordial favorecer a ‘evolução’ do terceiro olho,  sendo utilizado em amuletos,  livros e objetos ritualísticos como símbolo de proteção,  de elevação da sensibilidade energética e acima de tudo como um emblema.  A crença do terceiro olho é fascinante, ele é indicado como um sinal da visão que ilumina.  É o sexto dos sete chakras da Kundalini Yoga.  Sua localização está entre as sobrancelhas, 3 cm acima da raiz do nariz. Também pode ser relacionado à glândula pineal, considerada por algumas correntes esotéricas como a sede dos poderes psíquicos e paranormais.

Kundalini Yoga e seu menor olho no meio da testa

No Cristianismo o olho rodeado por raios ou inserido num triângulo com vértice para o alto é o símbolo da onipresença divina, a trindade. Em antigas representações podemos ver olhos nas asas de anjos, como símbolo de sua sabedoria penetrante. Na Maçonaria é simbolizado inserido no triângulo e rodeado pela coroa de raios. Lembra aos seus seguidores da sabedoria que penetra todo os mistérios, e também a vigilância do Criador. É o olho da providência. Entre os árabes ele é o símbolo da culpa. É usado para lembrar às mulheres sua posição de fonte de desejo e pecado.

Talismã O Olho de Deus

Como os egípcios, os gregos também empregavam o olho em peças de adornos para absorver vibrações, encobrindo-o de significados e espiritualidade. As pessoas levavam ao pescoço o “Olho Grego”: uma peça de forma redonda, esférica ou achatada, com a íris preta no círculo azul. Tem o poder de afastar a cobiça e os maus sentimentos. Originalmente confeccionado em vidro podia sofrer rachaduras, resultantes da obsorção das más energias.

Olho Grego

Notamos que os olhos, como órgãos externos, tem grande importância na religião, mesmo na semítica, em que há também há o símbolo do olho de deus em torno da pirâmide. Castaneda enfatiza que a principal ligação dos olhos não é com o mundo sensível, e sim com o intento, e chega mesmo a descrever alguns exercícios de mudança de foco e atonalidade afim de suscitar uma quebra na atenção cotidiana, ou estados específicos de atenção mais propícios para conseguir “ver”.

O olho penetra a música, induzindo bandas a o usarem como um ícone, uma figura de identidade ou um abuso de signos expresso em capas, cenários e posters. Em Pulse,  o Pink Floyd engloba o olho no complexo do criacionismo. O surgimento da vida e dos sentidos,  sendo a visão o principal deles, que guia nós seres humanos a perceber o mundo, vê-lo para crer na sua existência.

Aparece em posters do Sonic Youth, de maneira implícita (parece um disco, mas também tem o formato do olho) mas com uma interpretação queaponta para a física. Colorido e composto por linhas que o circulam, remetendo ao processo visual das cores, como percebemos e visualizamos, os objetos só se colorem nesse aspecto empolgante que os vemos graças ao olho e ao cérebro.

O Secret Serpent cria posters agressivos para bandas cabeçudas, com monstros e olhos intrusos em triângulos, no centro da testa e em tornados. Isso encenado com todos aqueles misticismos e tabus já descritos.

E não é difícil notar a tara do Yeah Yeah Yeahs por olhos. Aparecem dependurados no cenário, nos instrumentos, e gritantes  no visual da vocalista Karen O. O olho virou um penduricalho da banda, e é encaixado com vários outros artifícios como sangue,  glitter, cores fluor que dramatizam a perfomance.

O símbolo do Olho Gigante, tema da última turnê da banda, concentrado na inspiração pelas religiões orientais, simbologias e imagens.

Os figurinos escalofobéticos criados por Cristian Joy, olhos preeenchendo mãozinhas em estampas folclóricas e camarões surrealistas, carregados por tribalismo e psicodelia.

Outras bandas que aproveitam do olho humano como objeto de identidade:

Fol Chen

Poster Acid Mother Temple

O olho é,portanto, gigante em seus sentidos. Pode ser ilustrado em seus diversos formatos, receber sentidos estranhos, significados incompreensíveis, descrições cabulosas, formatos agressivos ou despertar sentimentos sutis. Um enigma que desperta tanta curiosidade que acaba se simulando como um objeto.

Anúncios

Uma resposta para “OLHOS EM FÚRIA

  1. eu achei oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooootimo as pinturas surrealistas.beiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s