Arquivo do mês: dezembro 2010

PADRONAGENS COMPLEXAS

Padrões significam um monte de coisa, mas quando se fala de design o mais provável é que seja algo bidimensional que foi abstraído de formas da natureza. É o que mais se vê desde os desenhos das civilizações primitivas até no contemporâneo design de superfícies, são acima de tudo desenhos que se relacionam de alguma maneira, seja repetindo suas formas ou encaixando-as.  O que esses padrões ou padronagens mostram são motivos que se originam na natureza e que são produzidos pela própria vida e a partir daí são abstraídos e ganham uma nova aparência simplificada.

Asao Tokolo é mestre em criar peças construídas em padrões que se juntam, como um mosaico, mas no caso a genialidade está no fato de que os padrões podem ser encaixados de todas as maneiras, que sempre vão juntar o motivo e nunca irá se repetir. É uma tentação incontrolável de girar as pecinhas interminavelmente, e em todas as vezes, cada aresta poderá ser combinada com as outras. Formado em Ciência da Computação, ele estuda e calcula a forma do desenho de maneira a transformá-lo com essa flexibilidade de posições.

Nesse esboço que ele faz para desenvolver um imã, ele se baseia em padrões arabescos tradicionais japoneses popularmente lá conhecidos como Karakusa, que significa “plantas estrangeiras” ou “liquidações de plantas”. Isso porque há mais de 1.200 anos atrás, esses arabescos chegavam no Japão através da Rota das Especiarias. Eles vinham de distantes terras do Oeste, como Pérsia, Grécia, Índia, Arábia e Egito e a maioria insinuava formas vegetais, de flores e folhagens. Daí então os japoneses começaram a usar esses padrões nos seus impecáveis quimonos , nas roupas de cama, em tecidos e na cerâmica.

Tokolo não faz nenhum tipo de milagre, é pura matemática em cima do padrão formal espiral do Karakusa. O interessante é que o Karakusa não passa de uma forma abstraída da natureza que se transforma em elemento a ser moldado, pelo incrível trabalho de estudo de design por qual passa. Em sua análise, primeiro são estudadas as características particulares de cada fragmento do desenho, para depois serem examinadas as características gerais. E assim, finalmente, é como se olhássemos como as partes da forma constituem o todo. Essa é a lógica que o torna um padrão.

Padrão de Asao Tokolo aplicado na roupa

O Grupo Spam Guetto conseguiu encontrar alguma utilidade para as mensagens que inundam as caixas de e-mail diariamente, os spams. A caixa de spam se torna então o mais impressionante material de inspiração para os padrões que serão construídos com mensagens pornôs, pirataria, serviços financeiros e todos os tipos de ilegalidades possíveis. Essas mensagens logo vão decorar papéis de paredes, luminárias e embalagens. Total futurístico: reciclagem virtual!

As formas de base, a escrita nesse caso, não são extraídas da natureza, mas de elementos gráficos eletrônicos, mas as que formam o desenho final, escritas em folhagens, correntezas nos levam as formas naturais. As mensagens são inseridas em um único formato de linhas, a partir daí, são construídos desenhos e os motivos que irão se transformar em padrões. Se observarmos uma parede de longe com esses motivos, mal nos damos conta de que se tratam de mensagens eletrônicas insanas, percebemos primeiro os desenhos a forma geral, só depois quando nos aproximamos que notamos o que constitui cada parte. Mais uma vez esse padrão parte das características gerais para as partes específicas da forma.

Tatiana Plakhova é uma designer russa formada em psicologia, que cria padrões incrivelmente complexos com pontos, vetores, linhas e gráficos. As imagens criam um efeito de profundidade que surge da relação entre as linhas e as cores, que geram efeito de tridimensionalidade. São extraídas de cenas capturadas da natureza geológica: abismos, acidentes geográficos, montanhas e rios e da biologia: visões de microscópio, células, como quando uma gota de água pinga no cílio e se olha pra luz. Essas figuras da biologia são difíceis de classificar, são formas naturais, mas parecem abstratas. Além de que, ela também abstrai em imagens surpreendentes de ritmos musicais, como aqueles gráficos que aparece quando se fala no microfone do computador ou nos softwares de música. Padrões que partem de imagens simples da natureza e recebem o aspecto abstrato, se modificando em imagens complexas, gráficas, que parecem que foram retidas da astronomia ou de redes digitais, mas na verdade são desse jeito pelo tratamento que passam ao se transformarem em padrões.

Padrões biológicos: tecidos, células e bactérias


Padrões geográficos: mapas e imagens capturadas por satélites

Padrões geológicos: rochas, abismos e montanhas

Padrão musical: ritmos e frequências em ondas sonoras visuais

Padrão abstrato: vetor e linha


 

 

 

 

 

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TRANSMUTAÇÕES

Hylozoismo é o termo filosófico das coisas materiais, de tudo aquilo que possui vida, ou que é inseparável dela. Assim, pode ser entendido como uma doutrina materialista, a qual Thomas Hobbes defende como um tipo de ateísmo hylozóico, o qual atribui vida à matéria. Além de Hobbes, Spinoza também investigou o hylozoismo, no entanto, não só como uma doutrina materialista, mas combinando esta com um tipo de hylozoismo panteísta, que tem como finalidade manter o equilíbrio entre matéria e mente. Ele considera então que uma força de vida ou força de vida vai além de uma força viva no interior, atingindo também toda a matéria. No século XIX, Haeckel chegou a confirmar uma unidade de natureza orgânica e inorgânica derivada de todo as ações de ambos os tipos de matéria das causas e das leis naturais. Então, a sua visão de hyzoloismo vai contra todo o curso usual já abordado, quando afirma que as coisas vivas e não-vivas são, essencialmente, as mesmas, eliminando todo o tipo de distinção entre esses dois conjuntos e determinando-os como se eles comportassem seguindo um único conjunto de leis. Hoje, o hylozoismo científico vem se modificando, e indo bem além das teorias filosóficas, traduzido visualmente para a arquitetura, neurobiologia e instalações artísticas. A tendência atual tem sido muito criticada como uma visão mecanicista do mundo, mas ela vai muito além disso, pois pode-se usá-la como uma forma de descrever as mudanças de estado, tanto das coisas materiais, como na mente, como faz Philip Beesley.

Beesley é um dos que mistura todo esse complexo filosófico hyzoloísta com tecnologia e o que é tramado por trás do que vestimos, criando sistemas estranhos e absurdos que deixa a plateia perplexa penetrando em um ambiente surreal e totalmente interativo. Esses sistemas são redes feitas de malha de acrílico e matrizes de componentes fabricados digitalmente equipados com microprocessadores. São estruturas que se movem por serem tecidas em sensores, os quais respondem aos sinais de quem passa e se desloca no interior desses ambientes.

Ele já é um experiente em abordar questões que vão além da arquitetura, fazendo explorações nos magníficos e intricados tecidos biológicos, se aprofundando na ciência e na tecnologia e para melhorar, combina isso fazendo uma delirante combinação com a arte e o artesanato dos tecidos e geotexteis interativos. Geotêxtil quando se trata de tecido é o material que vêm do entrelaçamento de fios, filamentos, fitas e outros componentes – como no caso ele usa madeira, plástico, aço e elástico (materiais geológicos) – seguindo as direções trama e urdume. Depois ele incorpora a essas estruturas outras como sistemas mais autônomos, que dão um aspecto alielígena em todo o cenário, o que permite ao passante assemelhar isso às funções de um sistema vivo, à inteligência da máquina, aos movimentos de deglutição e as trocas metabólicas. Viver essas trocas químicas é concebido como um estágio de auto renovação das funções que enraízam dentro de nós mesmo e  dessa alucinante arquitetura.

Beesley diz que o que o inspira a criar essas estruturas complexas são  práticas que ultrapassam gerações e culturas no mundo inteiro, como o tricô, a dobradura o corte e a costura. Um domínio tão artesanal que é capaz de gerar uma confusão visual que parece ser fictícia. Para ele, fazer coisas materiais é construir, da mesa forma como é tricotado um suéter. A partir daí se pode refletir sobre as questões do hylozoismo e toda a materialidade tecida diariamente e até quando essa materialidade chega ao ponto de ser sobrenatural.

As instalações possuem frascos que contém protocélulas, as quais permitem a formação de habitats dentro da matriz, gerando novos organismos e mostrando as hipnóticas mudanças físicas e químicas que passam no próprio ambiente. Os geotêxteis, então, são usados como um tipo de matriz que permite a vida e todo o processo de transmutação dentro desses ambientes. Ambientes que incomodam, perturbam e que estão se transformando a cada segundo, levantando questões éticas muito importantes para serem refletidas.

O nome do projeto é Hylozoic Ground, não por acaso, ele se firma sobre a crença de que toda matéria possui vida, usa elementos da do entorno que se acumulam diariamente no solo híbrido, assimilando-os com as funções do sistema que conduz a vida. Existencialista, fictício, artesanal, profundo e instigante, esse projeto nos ajuda a perceber mudanças que demoram séculos, milênios para acontecer no ambiente, e outras que ocorrem conforme o processo de evolução das descobertas que surgem da mente humana.

Hussein Chalayan, em 2007, experimentou assimilando as transformações que acontecem no ambiente, com vestidos que se transformam. Um impecável trabalho aprofundado no que compõe os tecidos, no uso de materiais inovadores e na estrutura customizável da roupa. Assim como Beesley simula em suas instalações as mudanças no entorno do ambiente as transformações físicas e químicas,  Chalayan as mostra sobre o que envolve o corpo, usando as propriedades do tecido, como os fios se entrelaçam e materiais que o permite mover de uma região para outra, para mostrar como a roupa se transforma no corpo no decorrer do tempo. O que acontece, por exemplo, desde quando é confeccionada até durante o seu uso – como ela desgasta, envelhece e apodrece. E assim ele mostra vestidos que seguem estilo do período de 1906-1916 se modificando até 1926, enquanto o outro que era de 1926 e evolui ate 1936-1946, e assim por diante. O que deixa evidente uma transformação que naquele momento é instantânea mas que insinua as mudanças que demoram décadas para acontecer no vestuário.

A arquiteta francesa R&Sie, explora passado e futuro através das mutações do ambiente, esse ano exibindo um polêmico projeto na Bienal de Arquitetura de Veneza, o qual se move sobre os extremos da natureza e da psicologia humana. A crítica parte da paisagem geológica e dos experimentos tecnológicos  que rodeiam a vida contemporânea, mostrando por meio de amostras de substâncias a degradação proveniente da economia pós-industrial. A instalação partiu de um laboratório de pesquisa sobre a luz noturna, que analisa a adaptação ao escuro a fim de reduzir a poluição luminosa urbana, incluindo pedras de urânio controladas por um contador que indica a degradação do ozônio na origem de algumas patologias humanas. As pedras de urânio vêm diretamente da intensidade dos raios UV que atravessam a estratosfera e o seu magnífico efeito brilhante vai aumentando na medida em que a camada de ozônio vai desaparecendo. Assim, esse ele serve como um marcador de poluição, indicando como os efeitos das economias pós-industriais estão destruindo a camada de ozônio na estratosfera.

Componentes de pozinhos brilhantes com sensores de radiação.

Seu instigante projeto, além de articular com os perigos e incertezas do futuro, também retoma as barbáries cometidas no passado através do uso dessas substâncias perigosíssimas. Lembrando que o urânio está diretamente ligado às atrocidades de Nagazaki e Hiroshima e a todo os eventos trágicos que comprovaram o mal uso da ciência para a barbárie. Deparando com esses componentes e seus visíveis efeitos logo criamos uma noção das maneiras como eles podem ser manipulados, seja como elementos visuais de criação que nos deslumbram, pelos seus incríveis efeitos luminosos, ou como objeto de estudo científico, que nos apavoram, por estarmos em um ambiente totalmente desconhecido e perigoso.

Falando em ambiente perigoso, a instalação ainda faz referência a perigosa experiência de pessoas que se encontram em lugares desconhecidos, como tão bem abordada na produção de 1979 de Andrei Tarkosvky. No filme, um meteorito cai na terra e dizima uma cidade inteira, criando um zona desconhecida e misteriosa, conhecida como “A Zona”,  nessa área possui uma sala chamada “Sala Wish” e é lá que ocorre um tipo de cerimônia que ajuda um grupo de pessoas a se conhecerem. Essas pessoas não querem saber o que existe por trás disso tudo, apenas querem entender que tipo de experiência é essa que os prende no tal ambiente perigoso e desconhecido.

“Conhecer alguém significa enfrentar o desconhecido, o estranho, ou mesmo enfrentar a sua própria repulsa ao negociar um ambiente desconhecido. Isso não é nem confortável, nem agradável, significa que a passagem por um espaço heterotópico, onde ela em si é a única maneira de se definir e se relacionar com o que já está lá.  Isso implica a consideração dos riscos e da determinação de se ou não continuar com ele. Reunião não significa mergulhar em um carnaval de máscaras, ou encolhido em um quarto escuro, como se estivesse em uma cerimônia destinada exclusivamente por uma soma de individualidades. Significa ousar-se no risco do desconhecido juntos.”

Esse trabalho gráfico incrível acima faz parte dos screengrans projetados na performance Anatomia dos mundos imateriais, de Matthew Stone. A abordagem de Stone, conceitualmente, vai contra toda a crença hylozoísta, mas esteticamente tem uma forte semelhança com o trabalho de Beesley, pelo menos nessas hipnóticas imagens gráficas que vão sendo projetadas em vídeo em compasso com a ópera e a dança em pulsos eletrônicos.  E ela vai contra a doutrina materialista porque é conduzida por uma viagem espiritual xamânica, dentro da qual existe estados alterados de consciência que permite aos indivíduos terem acesso ao mundo imaterial. Stone explica que essas imagens com pontos luminosos, que lembram espaços imaginários e ambientes alienígenas (como os de R&Sie) se relacionam com as jornadas da sua própria mente. De certa forma, essas imagens servem como uma ajuda para fazer o público fechar as portas da lógica que insiste em dizer que “Você está apenas imaginando”. O que como ele indaga “Claro que você está apenas imaginando, mas o que é imaginação?”.

O fato é que Stone aborda questões que também dizem respeito a transições e a mudanças, só que dessa vez não no ambiente mas na mente humana. Os elementos teatrais que ele usa, como as imagens gráficas animadas e os sons eletrônicos servem como importantes ferramentas para que aqueles que assistem e vivenciam esse tipo de experiência, possa entendê-las como ferramentas do próprio consciente.

Eu não estou tentando fugir para um mundo de fantasia que não existe. Eu estou dizendo, que  o mundo real é mais complexo do do que aquilo que podemos entender, em termos puramente lógicos. Acho que precisamos de uma compreensão poética do mundo.

“Para a maioria, mudança é inimaginável até que aconteça.”