Arquivo do mês: março 2011

CARNAVAL

 

CARNEVALE

 

 

CARNIVAL

TRICOTED WORLD

Saturados de projeções e materiais intocáveis, escultures, ilustradores e estilistas retiram das práticas artesanais como o crochê ou o tricô a matéria orgânica, pronta e colorida para criar objetos, ambientes, instalações e roupas que surpreendem por toda a técnica por traz da maneira como foi tramada.

Melissa Loop sabe usar materiais de maneira bem inusitada em  instalações e esculturas. Em suas ideias ela explora as fantasias que o homem cria no decorrer da vida, tanto no mundo real como no digital. “Até recentemente eu fui pintando paisagens ambíguas de ilhas utópicas que estão em um estado constante de formação e implodindo sobre si mesmo. No entanto, o meu mais novo trabalho explora ideias mais específicas de utopia, uma vez que está diretamente relacionado à nossa pesquisa e tentativa de perfeição nas cidades, parques, destinos de férias, e as paisagens virtuais. Estas pinturas funcionam como metáforas para nossas simulações dos habitats naturais, estruturas sociais e ambientes consumistas.”

Tanto nas pinturas como nas instalações se pode notar a explosão de cores nos materiais que usa, como tecidos, luzes neon e até mesmo lápis de cor. Traços ultramodernos carregando características das interfaces digitais contrastando ao mesmo tempo com rabiscos que lembram traços infantis ou primitivistas. As paisagens são influenciadas pelo ambiente marítimo, praias e lugares procurados para o descanso de férias e de outro lado o hipercolorido dos jogos, vídeos, animação digital e da publicidade japonesa.

A sobreposição das formas serve para criar uma espécie de ilusão na pintura, deixando a composição confusa, além de colocar em evidência as fantasias consumistas. Lembram os ambientes mais procurados pela sociedade capitalista, em especial os parques de diversões infantis, lugar propício para aflorar a compulsividade e as utopias, se transformando então em um refúgio da realidade.

Agata Olek começou seu trabalho investigando malhas e a partir de suas descobertas então cria esculturas inacreditáveis.  De característica nômade, o seu trabalho muda de um lugar para o outro, migrando os fios para espaços inusitados, e preenchendo suportes triviais que nos cansam a vista diariamente, com as cores explosivas dos fios e os padrões cheios de vida do crochê. Para chegar a expor dessa maneira, Olek estudou a fundo a ciência da cultura, se aprofundando nas investigações sobre os fios e na crítica da produção industrial, com isso, cria em suas manifestações de espaço público um feedback para a realidade econômica e social das grandes cidades.

“Um ciclo após um circuito. Hora após hora minha loucura se torna crochê. A vida e a arte são inseparáveis. Os filmes que eu assistir enquanto crochê influenciar o meu trabalho e meu trabalho determina os filmes que eu selecionar. Eu crochê tudo o que entra no meu espaço.  Às vezes é uma mensagem de texto, um relatório médico, objetos encontrados. Existe a desvendar, a parte efêmera do meu trabalho que nunca me deixa esquecer a vida limitada do objeto de arte e o conceito de arte. O que tenho a intenção de revelar? Você tem que puxar o final do fio e desvendar a história por trás do crochê.”

Joy Kampia se entrega ao seu impecável gosto pela comida e transforma suas esculturas, pratos e fast food tricotados em apetitosos vestidos. A maioria das suas esculturas são as comidas de maior nível calórico e que mais despertam desejo no imaginário das crianças: hamburguers, tortas, sorvetes e pizzas.  O mais divertido de se entregar a essas roupas-esculturas é imaginar estar vestido de malha de peru, vestido de sundae ou colares de rosquinhas gigantes por uma prática artesanal que ultrapassa gerações e ainda assim conserva um forte apelo estético.

Sarah Moli Newton Applebaum impressiona na maneira em que usa a cor em suas esculturas feitas de tecido, fios e cobertores. Os padrões geométricos se tornam em abstração sugerindo um ambiente acolhedor só possível de ser encontrado em um espaço utópico de felicidade e sonhos induzidos.

Os figurinos são inventados a partir de personagens que ela inventa, aqueles que por sua vez aparentam serem fofos e inocentes e ao mesmo tempo intimidam por suas fisionomias nada amigáveis.

Sarah vasculha brechós em busca de cobertores baratos de padrões psicodélicos para costurar os seus enormes “metablankets”. Além dos cobertores, ela também customiza peças inacabadas reconfigurando suas cores em novos motivos. Não obstante, ela confessa que o que realmente a chama atenção nos cobertores não são o tricô mas sim a combinação “insana” de cores.  O que é revelado na junção entre a criatividade psicodélica e intuitiva das cores com a escolha “mundana” de um cobertor.

“A cor é tudo o que vemos e usamos para entender nosso entorno.  E isso está ligado ao sentimento tanto a emoção. Meu trabalho é muito primário . Eu trabalho com a cor, o tátil, arquétipos da forma e da paisagem, a mitologia.  Meu processo é intuitivo e com base em uma exploração de tudo o que me interessa em conjunto com a exploração dos materiais com que estou trabalhando.Eu realmente gosto de fazer coisas.”

Anne Larson é estilista e usa o tricô em seu ofício de criar roupas  com a ajuda de seu amigo tecelão Susan Johnson. Os dois criam peças com lindos padrões geométricos e multicoloridos. A escultura dessa vez pede o corpo como suporte para se acomodar e se mostrar deslumbrante.

Olympia Le Tan faz um incrível trabalho bordando capas de discos, livros e afins que deixam dúvidas de serem realmente artesanais. O pior é que de fato são e o que é de derramar lágrimas por não poderem ser reproduzidos na mesma proporção daquilo que é o que elas revestem.

Prontos para usar ou feitos à mão, o material desses artistas são preciosos não  só por pertencerem a qualquer categoria de arte decorativa, nem pela reação que provocam em quem olha e pensa “nossa, alguém teve a coragem de fazer ponto por ponto e a paciencia de repetir isso infinitas vezes” , mas por onde se infiltraram e seu valor de tradição que carrega, seja nos objetos mais banais ou  nos locais públicos que invadem.