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AVANT GARDE: À LA MODE

Nem só de cinema sobreviveram as vanguardas, que também se entregaram a fugacidade da moda, no entanto aproveitando da sua transitoriedade para despertar a atenção das pessoas, e ainda assim poder provocar alguma mudança nos modismos. Em grande parte dos movimentos vanguardistas houve uma forte interação entre artistas e roupas, estas servindo como um suporte inusitado, ideal para experimentar possibilidades plásticas performáticas, seja na padronagem, na forma ou nos figurinos.

 Para Giacomo Balla, as roupas deviam exprimir um ideal de vida, ter um significado instantâneo e instaurar a dimensão da simultaneidade, tão cara aos futuristas. Formas geométricas que quebravam a monotonia por meio da cor e da agressividade das linhas, assimetria e justaposição de formas dinâmicas em estampas de ternos, macacões, coletes, chapéus e até guarda-chuvas, transportando os conceitos abordados na pintura, como linha e velocidade; forma e barulho para o vestuário, só que de uma maneira mais despretensiosa e sarcástica. No total foram publicados 8 manifestos futuristas relacionados à moda, porém as idéias propostas nunca foram plenamente realizadas. Talvez seja porque o que eles propunham não condizia com as pretensões das classes dominantes, de modo que acabar com a distinção de classe no vestuário no auge da modernização era algo quase impossível de se alcançar.

Em seus projetos idealizados a maior aspiração era revolucionar de fato a moda, descartando tudo aquilo que era concebido como velho e promovendo um novo hábito. O novo nesse caso seria a expressão individual, mas que funcionava como uma espécie de uniforme, porque na verdade a proposta de Balla era que a maioria dos homens s vestissem de maneira praticamente igual e essa pode ter sido a razão pela qual a sua proposta fracassou. De modo que, para que as pessoas passem a aderir uma determinada moda não adianta querer impor isso de maneira política, como ele estava querendo fazer por meio do manifesto, mas por estratégias estéticas, que não deixem explícito que elas tem algum tipo de dever ou regra a ser seguida e daí as pessoas acabam seguindo por vontade própria.

Kasimir Malevich criou figurinos minuciosamente estudados e calculados tomando como referência a cultura popular russa para a ópera ‘Victory over the Sun’. Para essa peça, ele analisa de maneira esquemática a relação entre a forma da figura geométrica e a forma anatômica do corpo além do uso estratégico do jogo cromático com cores puras, conseguindo  dessa maneira criar figurinos que mesmo sendo de finalidade alegórica possuem uma síntese de composição única.

Enquanto isso, Varvara Stepanova e Liubov Popova se dedicavam a construir o ‘Traje Revolucionário’, partindo da idéia de que a arte devia estar em conexão com a política revolucionária, social e produtiva, sendo que a roupa deveria ser um projeto político-estético que servisse ao comunismo.

Os figurinos que ela criava era pra demonstrações teatrais esportivas, os quais transformavam o corpo humano em uma composição dinâmica e geométrica. Ela ignorava até demais as restrições de desenho da figura humana, mas assim como Malevich, ela incorporava objetos provindos da construção para a estrutura do corpo, por meio da síntese no desenho e do estudado uso das cores.

Além dos figurinos, ela também desenvolveu trabalhos com tecido, desenvolvendo projetos para impressão, ou seja, lindas estampas. Não obstante, ela ainda assume uma postura ativa e de preocupação dianteaos mecanismos de produção. “Estamos chegando a um ponto onde um abismo separando o tecido propriamente dito e o manto de ready made está se tornando um sério obstáculo para a melhoria da qualidade da nossa produção. Este é o tempo para se deslocar de desenhar roupas para a concepção da estrutura do tecido. Isso permitirá que a indústria têxtil abandone a sua variedade excessiva, e irá ajuda-la a padronizar e melhorar, finalmente, a qualidade de sua produção”.

Quem além de criar figurinos inovadores e estampas de encher os olhos foi Sonia Delaunay. Vanguardista ou não, foi ela quem trouxe de fato a arte para a moda, sem preconceitos, sem querer estabelecer nenhum critério nem regra, sem restrições. Ela revolucionou sem precisar de grandes discursos e manifestos, sem precisar mudar na silhueta e no corte das peças, a sua estratégia triunfante se deu pelo sábio uso da cor em suas variações e combinações ousadas.

Em seus desenhos têxteis ela se esbalda nos elementos gráficos,indo de listras, ziguezagues, figuras geométricas até espirais trabalhados em lã, metais, e fios de seda. Nesta peça, por exemplo, “O Vestido Simultâneo” ela segue um mesmo processo aplicado para fazer a colcha de retalho para o seu filho, que consiste em uma mistura, quase uma colagem, de formas geométricas e irregulares, materiais e coreasa a fim de criar um padrão sobre a peça. O qual se aproxima muito, por sua vez, do patchwork. Logo em seguida ela ainda utiliza esse experimento para produzir cobertores, abajures e cortinas, uma instigante junção entre moda, arte e design de interiores.

Em se tratando de figurinos ela faz inúmeras colaborações, inclusive para a peça ‘Cleópatre’ de 1918, para o Balé Russo e posteriormente desenvolve esboços para “Poemas Vestidos” misturando cores e versos de poesias interpretadas por poetas diferentes. Entretanto, as mais lindas peças podem serem vistas na série de filmes franceses “ Le P’tit Parigot”, dirigida por René Le Somptier.

Delaunay olha os efeitos produzidos pelas cores em seu trabalho buscando sempre provocar uma resposta na combinação de cores impactantes, concebendo suas mais diversas criações como parte ou extensões das pinturas. “Um movimento agora está influenciando moda, assim como influência a decoração de interiores, o cinema e todas as artes visuais e que ultrapassam tudo o que não está sujeito a este novo princípio, que os pintores passaram um século procurando: estamos somente no início do estudo dessas relações de cor nova, ainda cheia de mistérios para desvendar, que estão na base de uma visão moderna. Não há como voltar ao passado.”

O mais empolgante em falar de Sonia Delaunay no meio das vanguardas nesse momento, é que algumas pessoas estão tendo o privilégio de ver o seu trabalho na exposição “Move Cor: Arte e Moda por Sonia Delaunay”, que foi recentemente aberta em Nova York.

“Move Cor: Arte e Moda por Sonia Delaunay” está em em Nova Iorque, Cooper-Hewitt, até 05 de junho de 2011.

TRICOTED WORLD

Saturados de projeções e materiais intocáveis, escultures, ilustradores e estilistas retiram das práticas artesanais como o crochê ou o tricô a matéria orgânica, pronta e colorida para criar objetos, ambientes, instalações e roupas que surpreendem por toda a técnica por traz da maneira como foi tramada.

Melissa Loop sabe usar materiais de maneira bem inusitada em  instalações e esculturas. Em suas ideias ela explora as fantasias que o homem cria no decorrer da vida, tanto no mundo real como no digital. “Até recentemente eu fui pintando paisagens ambíguas de ilhas utópicas que estão em um estado constante de formação e implodindo sobre si mesmo. No entanto, o meu mais novo trabalho explora ideias mais específicas de utopia, uma vez que está diretamente relacionado à nossa pesquisa e tentativa de perfeição nas cidades, parques, destinos de férias, e as paisagens virtuais. Estas pinturas funcionam como metáforas para nossas simulações dos habitats naturais, estruturas sociais e ambientes consumistas.”

Tanto nas pinturas como nas instalações se pode notar a explosão de cores nos materiais que usa, como tecidos, luzes neon e até mesmo lápis de cor. Traços ultramodernos carregando características das interfaces digitais contrastando ao mesmo tempo com rabiscos que lembram traços infantis ou primitivistas. As paisagens são influenciadas pelo ambiente marítimo, praias e lugares procurados para o descanso de férias e de outro lado o hipercolorido dos jogos, vídeos, animação digital e da publicidade japonesa.

A sobreposição das formas serve para criar uma espécie de ilusão na pintura, deixando a composição confusa, além de colocar em evidência as fantasias consumistas. Lembram os ambientes mais procurados pela sociedade capitalista, em especial os parques de diversões infantis, lugar propício para aflorar a compulsividade e as utopias, se transformando então em um refúgio da realidade.

Agata Olek começou seu trabalho investigando malhas e a partir de suas descobertas então cria esculturas inacreditáveis.  De característica nômade, o seu trabalho muda de um lugar para o outro, migrando os fios para espaços inusitados, e preenchendo suportes triviais que nos cansam a vista diariamente, com as cores explosivas dos fios e os padrões cheios de vida do crochê. Para chegar a expor dessa maneira, Olek estudou a fundo a ciência da cultura, se aprofundando nas investigações sobre os fios e na crítica da produção industrial, com isso, cria em suas manifestações de espaço público um feedback para a realidade econômica e social das grandes cidades.

“Um ciclo após um circuito. Hora após hora minha loucura se torna crochê. A vida e a arte são inseparáveis. Os filmes que eu assistir enquanto crochê influenciar o meu trabalho e meu trabalho determina os filmes que eu selecionar. Eu crochê tudo o que entra no meu espaço.  Às vezes é uma mensagem de texto, um relatório médico, objetos encontrados. Existe a desvendar, a parte efêmera do meu trabalho que nunca me deixa esquecer a vida limitada do objeto de arte e o conceito de arte. O que tenho a intenção de revelar? Você tem que puxar o final do fio e desvendar a história por trás do crochê.”

Joy Kampia se entrega ao seu impecável gosto pela comida e transforma suas esculturas, pratos e fast food tricotados em apetitosos vestidos. A maioria das suas esculturas são as comidas de maior nível calórico e que mais despertam desejo no imaginário das crianças: hamburguers, tortas, sorvetes e pizzas.  O mais divertido de se entregar a essas roupas-esculturas é imaginar estar vestido de malha de peru, vestido de sundae ou colares de rosquinhas gigantes por uma prática artesanal que ultrapassa gerações e ainda assim conserva um forte apelo estético.

Sarah Moli Newton Applebaum impressiona na maneira em que usa a cor em suas esculturas feitas de tecido, fios e cobertores. Os padrões geométricos se tornam em abstração sugerindo um ambiente acolhedor só possível de ser encontrado em um espaço utópico de felicidade e sonhos induzidos.

Os figurinos são inventados a partir de personagens que ela inventa, aqueles que por sua vez aparentam serem fofos e inocentes e ao mesmo tempo intimidam por suas fisionomias nada amigáveis.

Sarah vasculha brechós em busca de cobertores baratos de padrões psicodélicos para costurar os seus enormes “metablankets”. Além dos cobertores, ela também customiza peças inacabadas reconfigurando suas cores em novos motivos. Não obstante, ela confessa que o que realmente a chama atenção nos cobertores não são o tricô mas sim a combinação “insana” de cores.  O que é revelado na junção entre a criatividade psicodélica e intuitiva das cores com a escolha “mundana” de um cobertor.

“A cor é tudo o que vemos e usamos para entender nosso entorno.  E isso está ligado ao sentimento tanto a emoção. Meu trabalho é muito primário . Eu trabalho com a cor, o tátil, arquétipos da forma e da paisagem, a mitologia.  Meu processo é intuitivo e com base em uma exploração de tudo o que me interessa em conjunto com a exploração dos materiais com que estou trabalhando.Eu realmente gosto de fazer coisas.”

Anne Larson é estilista e usa o tricô em seu ofício de criar roupas  com a ajuda de seu amigo tecelão Susan Johnson. Os dois criam peças com lindos padrões geométricos e multicoloridos. A escultura dessa vez pede o corpo como suporte para se acomodar e se mostrar deslumbrante.

Olympia Le Tan faz um incrível trabalho bordando capas de discos, livros e afins que deixam dúvidas de serem realmente artesanais. O pior é que de fato são e o que é de derramar lágrimas por não poderem ser reproduzidos na mesma proporção daquilo que é o que elas revestem.

Prontos para usar ou feitos à mão, o material desses artistas são preciosos não  só por pertencerem a qualquer categoria de arte decorativa, nem pela reação que provocam em quem olha e pensa “nossa, alguém teve a coragem de fazer ponto por ponto e a paciencia de repetir isso infinitas vezes” , mas por onde se infiltraram e seu valor de tradição que carrega, seja nos objetos mais banais ou  nos locais públicos que invadem.