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AVANT GARDE

Vanguarda é o termo derivado da expressão francesa « avant-guarde » que em seu significado indica aquilo que está à frente ou aquilo que é inovador. Esse termo, então, pode ser aplicado a qualquer movimento que proponha uma nova visão, seja no campo da imagem, da música ou da literatura. Das manifestações que estão associadas a esse conceito, as mais notáveis até os dias de hoje são as de expressão artística, por escolherem a vanguarda como uma forma de interferir na vida das pessoas, ou melhor, de mudá-las, de se aproximar das ameaças e das oportunidades que estavam sendo desencadeadas na transição do século XIX para o século XX. Infiltrando nesse conceito, vou me esforçar para fazer uma série de publicações a respeito das vanguardas. Indo desde o “avant guard” no início do século XX, que fez produções únicas no cinema e na dança passando por manifestações da música nas décadas de 60 e 70 e da moda durante o decorrer do século. Nem sempre obedecendo à ordem cronológica dos acontecimentos, mas tentando manter uma consistência no que for abordado, usarei esse espaço para colocar o meu ponto de vista e análise sobre os fatos a fim de me aprofundar mais nesses assuntos.

O que é mais marcante nas vanguardas artísticas é o modo como elas recusam o que é da ordem do passado se focando para aquilo que se situa primordialmente no presente. Essa pode ser uma das razões pelas quais elas emergirem no modernismo construído no círculo industrial. Nesse contexto, o cinema ao contrário de outros ramos da arte, parecia ser a maneira mais adequada para passar a atmosfera mecanizada, caótica e dinâmica por meio da visualização móvel e da fotomontagem, técnicas de filme capazes de mostrar com grande precisão imagens em movimento.  Imagens em movimento para um mundo mais movimentado que nunca. Como descreve o poeta Yvan Goll, “estamos em uma nova era, a era do movimento e isto se deve a técnica. Mudou a face do mundo inteiro. Pequenas cidades se transformaram em grandes estaleiros inchados, os arranhas-céus de Nova York se fizeram montanhas de luzes(…)movimento, cheio de movimento. A experiência, a imagem visual atrás. Todos os ramos das artes: poesia, pintura, escultura e dança (…). A mudança tem sido muito sentida: o futurismo. Picasso na pintura. Stramm na poesia. Sentindo. O espaço e o tempo derrotados apenas uma vez. A arte do mais alto nível: uma síntese dos opostos e o primeiro jogo da técnica se torna possível e fácil para um filme de nossa era”. O filme se tornou um dos mais proeminentes sinais para a reflexão e passou a ser ele mesmo o seu próprio tema, mostrando que o mundo material e humano já não estava mais sujeitos à apresentação, mas sim a sua própria montagem combinada a todos os assuntos.

Louis Delluc  encabeçou o movimento intelectual francês o qual contrastava realidade e arte tinha como maior pretensão tornar o cinema uma manifestação artística independente das outras artes. Assim, o filme ao invés de caminhar conforme as artes plásticas, se voltaria exclusivamente para os processos psicológicos humanos e a partir daí poderia surgir associações livres com a realidade. Essa foi uma mudança importante para abordagem cinematográfica, pois permitiu ao filme superar seu aspecto mais voltado ao “humor” e fazer com que assuntos mais intelectuais atraíssem maior interesse.

Hans Richter, mestre na produção de filmes experimentais, se define no dadaísmo como uma “espécie de movimento glorificado que em seu tempo ganha alguma capacidade destrutiva”. Nesse sentido, o que ele mais busca emitir em seu trabalho são os princípios de liberdade ilimitada e expressão espontânea.
Através de suas experiências com linhas, pedaços de papel e desenhos relacionados à harmonia da forma, concebidas no plano bidimensional transportou-as para o movimento, ou seja, para seu próprio filme. Assim surgiu Rythmus, se primeiro filme lançado em 1921. Nele, ele incorpora o som das teclas de piano às imagens em movimento além de também usar recursos de claro e escuro e sintonizar formas retangulares com batidas alternadas. Dessa forma, a coerência entre a regularidade das formas, materiais e objetos representam o sistema, o qual por sua vez também inclui humanos e a possibilidade de um colapso com esse sistema.

Renè Clair se mostra muito corajoso na época exibindo sua produção de Entre’act em 1924. O filme contrapõe movimentos lentos e rápidos com vários planos e ângulos inusitados. Cenas desprazerosas que geraram incômodo na platéia que logo reagiu com vaias e espanto. Mas para a não surpresa, os seus idealizadores audaciosos alcançaram seu objetivo, que na verdade nada mais era que escandalizar a burguesia francesa, que mais logo também escandalizou em outras grandes metrópoles que estavam conduzidas a todo vapor pelas idéias de industrialização e progresso.


Man Ray em sua segunda produção intitulada “Emak Bakia”, que significa “deixe-me em paz” intercala formas abstratas se movimentando na luz, além de alfinetes e tachinhas para produzir efeitos que lembram o mecanismo das cidades modernizadas. Além disso, outro recurso marcante em suas produções são as mulheres com as pálpebras pintadas que sugerem às imagens um fundo psicanalítico conciliando o conteúdo real e ilusório. Man Ray tenta reivindicar um paralelo entre esses dois extremos para assim mostrar o conteúdo oculto da alma, não aparente nos estados de humor.


Ballet Mécanique foi o único filme produzido por Fernand Léger, em 1924. Nele ele testa a tolerância do espectador, utilizando uma máquina que testa o corte do material fotográfico muito rápido, usando movimentos redundantes e repetitivos para ver até onde vai a capacidade do observador de continuar atento às cenas. Chapéus de palha, sapatos, copos, pratos, rostos, olhos, máquinas, utensilhos e até mesmo uma lavadeira se tornou alvo na cena, todos tratados de uma mesma maneira, com uma única força. Assim, o homem e o objeto são colocados sob o mesmo ritmo e pulso, de modo que as imagens não possuem nenhum valor simbólico emocional, são somente elementos de construção e design.


Laszlo Moholy Nagy foi um dos pioneiros do experimentalismo no cinema húngaro. Ele acreditava como ninguém no discurso entre “utopia” e “experimentação”. No início dos anos 20, estes dois conceitos eram baseados na programação artística, e conseqüentemente penetraram o pensamento e o espírito criativo da época. E é daí que surge a noção utópica de compromisso social relacionada à vanguarda como uma maneira de criar experimentando e se manifestando conforme o que acontece no cotidiano. Os objetos e dispositivos usados por Moholy Nagy fazem com que o tema do filme se perca completamente no seu materialismo, em seus efeitos de luz e sombra ao invés de uma seqüência convencional de padrões visuais. Assim, o seus principais instrumentos são a luz e o movimento que exercem um papel vital nas suas filmagens e foi desse modo como ele imaginou a arte do futuro, a qual explora as várias possibilidades da luz em composições ligadas ao movimento que podem se transformar em milhares de estruturas diferentes ou formar um único padrão.