Arquivo da categoria: cultura

SUBCULTURAS

As vanguardas, em toda a amplitude que envolve esse conceito, ultrapassaram as manifestações de cunho artístico, e foram propulsoras para uma série de movimentos culturais que passaram a fazer parte da cultura ocidental em meados do século XX. O pensamento libertário vanguardista serviu de fundo ideológico para grupos identitários de subcultura e contracultura, os quais se esforçavam em romper com as estruturas tradicionais da sociedade por meio de expressão individual. Ainda seguiam a linha ideológica vanguardista pelo fato de recusarem aquilo que era imposto por padrões e convenções sociais e pelo esforço de serem reconhecidos socialmente pela individualidade e liberdade pessoal.Nesse cenário se concebeu o surgimento de tribos urbanas ou microgrupos formados por pessoas que compartilham do mesmo pensamento, hábitos e maneiras de se vestir, e que por essas afinidades se constituem em grupos. Tais grupos se reúnem geralmente na rua ou em lugares fechados como clubes, boates e bares, na maioria das vezes sem um motivo definido, apenas pelo fato de “estar junto” com pessoas que compartilham dos mesmos gostos e afinidades.Assim como os povos primitivos e até mesmo as tribos étnicas, as tribos de rua surgiram a fim de nutrir um senso de comunidade e de se unirem a fim de um propósito comum, ou seja, pelo sentimento de estar inserido em um determinado grupo e de poder compartilhar experiências dentro do mesmo. A aparência dessas tribos são delimitadas por estilos diferentes, cada qual podendo ser identificada por um determinado modo de se vestir, maquiar, adornar e tatuar. O estilo, então, funciona como uma forma de traduzir visualmente aquilo que é codificado nas idéias e ideais que juntos compõem uma determinada subcultura.Muitos encaram essas subculturas como fenômonos de “moda passageira”, como grupos que se reuniram apenas por desejos supérfluos ou modismos musicais e que logo irão se desfazer para ceder lugar a outros grupos formados sob a mesma intenção e que irão dar seqüência ao ciclo transitório dos modismos. Mas o fato é que essas tribos permanecem na história como manifestações de resistência cultural, como prova disso existem exemplos clássicos que ainda estão presentes, de uma forma ou de outra na cultura contemporânea, desde música à moda urbana, os Hipsters, Folkies, Rockabillies, Sufers, Mods, Rockers, Hippies, Góticos, Psychobillies, Teddy Boys, Ravers, Punks, Skaters, Indies, Grunges, Cyberpunks, Riot Grrrrls, Glams entre outros ainda interferem nas escolhas, gostos e estilos pessoais. As identidades dessas subculturas vem se multiplicando de uma maneira absurda, nesse sentido, a cultura jovem contemporânea vai contra a homogeneidade de estilo e as microtribos são cada vez mais comuns servindo como um refúgio de tradições e compromissos sociais e uma maneira de interagir com aqueles que compartilham das mesmas formas de pensar. Seja lá qual for a causa, o que leva esses grupos a se formarem ainda continua o mesmo, o mais instigante é notar como o efeito que elas produziram ainda permanece pulsante.

SINTETIZADORES TEXTEIS PARA NOMADES

Para ter uma banda hoje já nem é mais preciso ser um instrumentista, nem entender de teoria musical, basta vestir a tecnologia encantadora que incorpora os tecidos. Já podemos pensar em  roupas para nômades emitindo barulhos para algum tipo de sinalização, ou melhor, roupas musicais, roupas-bandas, roupas-instrumentos, ou roupas que quem está a fim de montar uma banda veste e a própria roupa emite o som conforme o movimento do corpo.

Parece difícil de imaginar, mas quem pensou nisso primeiro foi a dupla sueca Jeannine Han e Dan Hiley, responsáveis pelo projeto que desenvolve módulos baseados nos tecidos e nas interfaces eletrônicas sensoriais que controlam e sintetizam a música conforme os movimentos corporais. Ou seja, eles incorporaram sensores de toque, parecidos com esses usados nas telas de toque de iPod, no tecido, daí um microcomputador AVR com o código de detecção do toque converte os gestos da mão do usuário ao longo da peça em comandos geradores de música, os quais produzem o som.

A área têxtil sensorial se estende desde o pescoço até a região da cintura e através dela é possível criar sons de harpa, piano, guitarra e qualquer som já inventado até agora na música. O instrumento têxtil cria então uma ligação natural entre movimento e som que permite ao usuário compor e improvisar o que quiser de maneiras alternativas, o que é quase impossível de se fazer com os instrumentos tradicionais.

Outra coisa importante de se observar é a preocupação que Jeanine teve com o aspecto estético das peças, parecendo que são mesmo feitas para nômades, de modo que são criadas  para apresentar personagens que caracterizam essa mudança de ambientes, tão típica dos nômades e até mesmo das bandas. Foram criados quatro personagens que integram uma espécie de banda mesmo  e segundo os autores do projeto, esses personagens foram criados  a partir de reflexões sobre a autotransformação, a transcendência, as curiosidades, e tudo aquilo que  os indivíduos aspiram.  Daí então a intenção é que a apresentação  final desses personagens com toda a performance montada vai acontecer num contexto de uma obra de arte ritualística em um ambiente com controladores de sons, o que vai servir para reforçar os laços sociais entre esses nômades performáticos.

Pelo vídeo é possível ter uma noção mais clara disso tudo, apesar de ser bem curto, mostra até onde isso pode ser tão incrível.

Para Jeanine “a roupa é para uma viagem nômade que deseja se comunicar com outros nômades, por isso o som é inspirado pela natureza”, o curioso é que ao mesmo tempo que essas peças são inspiradas no nomadismo, tem um aspecto primitivo e resgata alguns gestos típicos dos nossos ancestrais, como emitir sons para dar sinal ao outro, elas também levantam questões de como os objetos serão produzidos no futuro. Pois, o desafio que se mostra é como desenvolver uma tecnologia que torne mais fácil a produção dessas roupas futuramente. Mas se inseridas de fato no mercado, como vai ser andar pelas ruas emitindo vibrações? Como os músicos vão encarar isso tudo? Como as bandas vão se comportar e qual será o destino dos instrumentos musicais?

ORIENT IS FULL OF LOVE

O Oriente é o lugar mais inspirativo do mundo. E é de lá que se extrai as padronagens, estampas, desenhos, mantos e quimonos mais incríveis do universo. Ao mesmo tempo que é rico em diversidade étnica e cultural é simples no traço, na síntese gráfica e na composição dos desenhos. Tudo repleto de tradições místicas, religiosas e simbólicas que carregam distinções sociais feitas por meio do vestuário.

Um dos tradicionais exemplos dessa distinção no vestuário asiático foi quando os guerreiros nômades “manchu” derrubaram a dinastia ‘Ming’, em 1644, e fundaram a dinastia Ch’ing, que assumiu a maior população do mundo, a maior burocracia e um dos tribunais mais luxuosos de toda a existência. A fim de facilitarem uma transição ordenada, que protegesse contra a política de assimilação total, os manchus se ajustaram em uma burocracia de estilo chinês e adotaram uma religião budista, ao mesmo tempo, à aplicação de certas diferenças étnicas e culturais. Uma das mais significantes distinções feitas foi a do vestuário tribunal. Os mantos oficiais do tribunal sofreram alterações em seus volumes, no corte, de mangas largas, na cor, que passou do vermelho para o amarelo e nas botas de montaria, típicas de sociedades nômades guerreiras durante as dinastias Ch’ing e Ming. Esses mantos representaram um dos sistemas mais suntuosos e simbólicos já desenvolvidos para uma veste de oficiais, junto à cor e os acessórios eles eram usados por todos os homens e mulheres associados ao trono do dragão e traçava as distinções entre a nobreza, os títulos oficiais e o status social.A cor amarela era reservada para as roupas usadas pelos cargos mais altos, como o imperador, a imperatriz, a imperatriz viúva e o futuro herdeiro do trono. A outra maioria dos nobres e funcionários eram obrigados a usarem marrom ou azul nas vestes num tipo de veste semiformal.  A classificação exata de um oficial de justiça podia ser determinada pela cor da sua roupa, pelo desenho simbólico do dragão e pelos materiais que eram usados para decorar seus acessórios: como a pedra que era usada como remate no chapéu e os crachás com animais desenhados.

Na China, os ‘Miao’ são uma das várias minorias étnicas que vivem nas áreas montanhosas subtropicais do sudoeste do país. Diferentes grupos, por milhares de anos, desenvolveram tradições culturais que estão se tornando cada vez mais reconhecidas por sua extraordinária riqueza artesanal de têxteis e jóias de prata. O trabalho com tecidos inclui bordados, brocados, batiks e enfeites à mão que os tornaram conhecidos no mundo todo. A chapelaria que eles confeccionam é de abismar, toda feita de prata. Uma variedade sem fim: flores de cabeça de prata, argolas de prata, pinos de prata, lenços de prata, turbantes de prata, chapéus esvoaçantes de prata, grampo de prata, pente de prata, brinco de prata e assim por diante. É uma região de fantasia onde a mitologia, a técnica e a habilidade afirmam sua identidade cultural e expressão estética.

Até recentemente, algumas dessas aldeias étnicas remotas foram isoladas das outras populações chinesas “medernizadas”, mesmo assim, no entanto, a avassaladora modernização que vem potencializando economicamente a China penetrou em alguns distritos minoritários, como no Guizhou, Guangxi, Yunnan e Guangdong. Com efeito, essas variações econômicas resultantes que também se associam as sociais e educacionais já começaram a corroer a aparência e o uso desses incríveis trajes tradicionais de festa usados pelos ‘Miao’ e pelos outros grupos étnicos. O que é lastimável.

Kenzo Takada já mostrou ao longo de sua carreira que sabe como ninguém olhar para essas culturas, minorias étnicas que povoam o rico e vasto território asiático, traduzindo para o vestuário contemporâneo, para os corpos ocidentalizados.  Kenzo se inspirou em todas as etnias e compôs peças que sobrepunham camadas dos pés à cabeça com modelos que lembravam bonecas russas até ícones religiosos.

Com a sua marca comemorando o 40º aniversário no ano passado, o diretor de criação Antônio Marras homenageou Kenzo nas passarelas com as suas bonecas nômades  representadas pelo exagero da mistura de cores e estampas extraídas nos grupos étnicos de todos os cantos do mundo. Exótico e absurdamente incrível, essa coleção fundia a rica história da marca com a cultura da região de Sardenha, com tradicionais quimonos japoneses decorados com bordados junto com silhuetas repletas de camadas sobrepostas de tecidos estampados, turbantes enormes e luvas que ilustram esse vibrante casamento cultural de etnias.

Algumas estampas lembravam as ondas do gravurista japonês Katsushika Hokusai, um dos principais especialistas em pintura chinesa no Japão. Apesar de toda a extravagância dos modelos tradicionais e exóticos dos grupos orientais e do vestuário asiático, nos desenhos é possível notar uma forte simplificação de traços e o uso muito aprimorado da cor. O que vêm do uso da xilogravura como uma das principais técnicas artísticas contribuindo para essa síntese gráfica tão características na arte japonesa. O mais interessante de olhar pra essas culturas é então perceber o quanto suas tradições são tão ricas e decorativas enquanto a estética artística oriental é totalmente simples e gráfica. Assim tendo elas como ponto de referência, se pode criar peças incríveis em mantos, quimonos e aventais cheios de camadas de tecidos combinando com estampas e detalhes gráficos bem simplificados. Vindo do Oriente tudo é permitido.

A Grande Onda de Kanawaga, 1930.

Oshiokuri Hato Tsusen no Zu, 1805.