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MOTOROCKERS

As raízes de muitos grupos de jovens da metade do século acabam se enroscando com raízes do rock’n’roll e até mesmo de esportes como o motociclismo. Até mesmo os headbangers, que esbocei na última publicação bebem muito da fonte desses jovens, assim como o próprio Heavy metal desenterra muito dessas raízes do rock. Dessa vez a abordagem será um pouco mais ampla, partindo onde desabrocha o espírito rebelde movido à  couro, jeans, borracha, rock e gasolina. Yee-haw!A moto se transforma em meio de transporte símbolo de todo um estilo de vida, como nunca visto antes logo no período pós-guerra, quando jovens que não tinham condições de comprar automóveis, compravam motocicletas a fim de investirem em um veículo de custo menor. Assim, ela se tornou no transporte ideal para jovens marginais aparecendo inclusive como ícone de rebeldia em The Wild One, filme de 53 que traz Marlon Brando como líder de uma gangue de 13 rebeldes, em que é retratado o modo de vida de grupos e gangues de motociclistas responsáveis por construir naquele momento um estilo de vida muito peculiar. O filme foi baseado no comportamento desses jovens pertencentes a grupos como o Shell Thuet e Boozefighters e no modo como assumiam comportamentos desordeiros, selvagens, a base de muita bebida e alta velocidade sob suas motocicletas. Esses bandos de jovens que saíam com suas motocicletas e estavam construindo todo um ideal de rebeldia ficaram conhecidos como Bikers. O estilo Biker servia como uma resposta ao estilo dos jovens ricos que possuíam automóveis, assim, usavam as roupas robustas das classes trabalhadoras, jaquetas de couro e peças militares a fim de construir um visual bem mais agressivo para os motociclistas e mostrar superioridade não no poder aquisitivo mas no comportamento. Esse comportamento transgressor foi o combustível que estava começando a mover uma geração, de rapazes e até mesmo de moças atrás de um estilo de vida que ajudasse a atravessarem a árdua fase da adolescência. Ser rebelde era uma forma de encarar as picuinhas da vida, da cultura, mesmo que fosse contra, contra si mesmo, contra sociedade, contra cultura,  era não levar as coisas tão à sério e sair por aí de moto com jaqueta de couro, calça jeans Levi’s e botas militares, o que logo se tornou o uniforme dos rebeldes ou dos endiabrados – modo como a sociedade disciplinada viam esses pobres jovens.Os Ton-up Boys partilhando mesmo comportamento Biker, entretanto, recebiam essa denominação diferentes por serem grupos britânicos mas ainda assim estavam inteiramente influenciados pela subcultura rebelde The Wild One. Também eram conhecidos como Coffee-bar cowboys, pelo fato de saírem para cidades pequenas exibindo suas motocicletas e apostando corridas e freqüentarem cafés em beiras de estradas. Contudo, teoricamente eles eram apenas motociclistas, viviam em função do esporte, mas querendo ou não na prática eles acabavam adotando o modo de se vestir das tribos de estilo que era basicamente o mesmo dos bikers: jaquetas de couro, jeans e botas. O que os diferenciava geralmente era um lenço  branco ao redor do pescoço. Embora não fosse muito comum, as Ton-up Girls também existiram, considerando que os Ton-Up Boys eram mais ligados ao esporte do que necessariamente a condição de tribo, de estar ali junto compartilhando afinidades e mostrando-as pela aparência,  nessa época ainda não era tão comum as mulheres pilotarem motocicletas. Mas de qualquer forma, elas marcavam certa presença nos cafés e também podiam ser vistas nas garupas dos rapazes geralmente vestidas da mesma forma, de jaqueta de couro, jeans e botas. Isso mostrava um grau de equivalência entre os sexos e não era só na maneira de se vestir se estendendo também na maneira como falavam, fumavam, bebiam e assumiam uma postura rebelde. Tal equivalência ainda rompia com uma série de valores passados, de modo que essa maneira de se vestir unissex fazia com que a identidade desses jovens fosse definida enquanto estavam com o tempo livre, sem nada para fazer, só no fato de estarem reunidos e não em algum tipo de ocupação convencional da sociedade. Os Ton-up Boys e Girls contribuíram para definir o arquétipo dos seus sucessores, mais conhecidos como os lendários Rockers.Os rockers começaram a aparecer em 62, com as reuniões dos grupos de motociclistas em bares e cafés nas redondezas de Londres. Eles se reuniam para ouvir rock and roll, tomar cerveja e fazer barulho nas suas motos noite afora. Assim como os Bikers e os Ton-ups Boys que também formavam gangues, uma das características mais marcantes dos rockers era a rivalidade com outros grupos, em especial com os mods, eles definitivamente não se davam. Tanto os rockers como os Mods, nessa época já contrastavam identidades e estilos, um sendo completamente distinto do outro o que gerava a rivalidade. O estilo rocker não dispensava penduricalho, era carregado de itens como bottons, insígnias pintadas, logos de bandas, desenhos de HQ, argolas de metal, tachas, a maioria em metal o fornecia uma identidade tribal ao grupo. Os adeptos ao estilo eram inspirados pelo estilo de vida de Gene Vicent à Johnny Kidd. A atitude rocker deriva também do comportamento “subversivo” das bandas e figuras que começavam a ser disseminados como ícones de rebeldia. Eles defendiam o autêntico rock and roll, o qual para eles vinha principalmente da cultura motociclista e não o injetado pelo consumo mainstream sob a forma ‘pap’ ou pop. Suas motos também eram cheias de penduricalhos, com peças agressivas e com todo peso e extravagância em correntes, algemas e rodas dependuradas. Sem dúvida, os rockers queriam, sobretudo, transmitir o espírito hard tanto na maneira de vestir como no modo como enfeitavam suas motos. Os rockers não desapareceram após o verão de 64 nem mesmo depois das brigas com os Mods, eles continuam aí. Em casas de shows, inferninhos que ainda tentam resgatar boa parte da aura desse movimento. O fato é que esta permanece na década de 60, naquele contexto e naquele círculo de e conflitos sociais e culturais, mas que não seja por isso que os rockers seriam exterminados da cultura rocker. Hoje não são tão jovens assim, boas parte é formada pelos velhos coroas barbudos, carecas-cabeludos que percorrem nas suas motos carregadas de objetos cheios de significados. A atitude rocker é um sustentáculo para entender boa parte dos grupos de subcultura,pois foi uma das matrizes fundamentais de influência para as tribos urbanas e grupos culturais rebeldes, de greasers à headbangers.Os greasers apareceram paralelamente aos rockers, por volta de 65, eram californianos que constituíam uma nova espécie de bikers ainda inspirados por The Wild One mas um pouco mais escalafobéticos que seus antecessores. Eles tinham um estilo totalmente barroco, extravagante e escandaloso, eram como se fossem motoqueiros emperuados. Suas jaquetas eram excessivamente cobertas de bottons, tachas e correntes dependuradas, ainda enrolavam correntes em quepes militares usavam muitas franjas em coletes e calças e misturavam uma porção de elementos, de rockers, cowboys, militares e afins. Usavam jeans mas nem sempre o básico, muitas vezes enchiam de glitter e de acessórios dependurados. Embora o visual fosse exagerado, os Greasers assim como os rockers queriam passar a imagem de bandidos transgressores e demoníacos, porém os rockers usavam a imagem para proclamar sua autenticidade de à moda mais antiga, crua, enquanto os greasers a carregavam para proclamar a aparência de “maus elementos”. Nesse sentido, ainda para piorar a imagem desses caras emperuados e malvados eles eram totalmente avessos aos ideais de “paz e amor” dos hippies, aliás, eles eram totalmente avessos aos hippies, não suportavam e queriam exterminá-los. Além disso, o modo de se vestir era condizente ao modo de adornar as motos, as quais assim como as roupas deviam servir como objeto de intimidação e masculinidade. Assim sendo, da mesma maneira que as jaquetas as motos também eram cobertas de tachas de metal, pinos e adesivos de bandas.

“Y’all come on back real soon– we’ll keep an eye out for ya.

SUBCULTURAS

As vanguardas, em toda a amplitude que envolve esse conceito, ultrapassaram as manifestações de cunho artístico, e foram propulsoras para uma série de movimentos culturais que passaram a fazer parte da cultura ocidental em meados do século XX. O pensamento libertário vanguardista serviu de fundo ideológico para grupos identitários de subcultura e contracultura, os quais se esforçavam em romper com as estruturas tradicionais da sociedade por meio de expressão individual. Ainda seguiam a linha ideológica vanguardista pelo fato de recusarem aquilo que era imposto por padrões e convenções sociais e pelo esforço de serem reconhecidos socialmente pela individualidade e liberdade pessoal.Nesse cenário se concebeu o surgimento de tribos urbanas ou microgrupos formados por pessoas que compartilham do mesmo pensamento, hábitos e maneiras de se vestir, e que por essas afinidades se constituem em grupos. Tais grupos se reúnem geralmente na rua ou em lugares fechados como clubes, boates e bares, na maioria das vezes sem um motivo definido, apenas pelo fato de “estar junto” com pessoas que compartilham dos mesmos gostos e afinidades.Assim como os povos primitivos e até mesmo as tribos étnicas, as tribos de rua surgiram a fim de nutrir um senso de comunidade e de se unirem a fim de um propósito comum, ou seja, pelo sentimento de estar inserido em um determinado grupo e de poder compartilhar experiências dentro do mesmo. A aparência dessas tribos são delimitadas por estilos diferentes, cada qual podendo ser identificada por um determinado modo de se vestir, maquiar, adornar e tatuar. O estilo, então, funciona como uma forma de traduzir visualmente aquilo que é codificado nas idéias e ideais que juntos compõem uma determinada subcultura.Muitos encaram essas subculturas como fenômonos de “moda passageira”, como grupos que se reuniram apenas por desejos supérfluos ou modismos musicais e que logo irão se desfazer para ceder lugar a outros grupos formados sob a mesma intenção e que irão dar seqüência ao ciclo transitório dos modismos. Mas o fato é que essas tribos permanecem na história como manifestações de resistência cultural, como prova disso existem exemplos clássicos que ainda estão presentes, de uma forma ou de outra na cultura contemporânea, desde música à moda urbana, os Hipsters, Folkies, Rockabillies, Sufers, Mods, Rockers, Hippies, Góticos, Psychobillies, Teddy Boys, Ravers, Punks, Skaters, Indies, Grunges, Cyberpunks, Riot Grrrrls, Glams entre outros ainda interferem nas escolhas, gostos e estilos pessoais. As identidades dessas subculturas vem se multiplicando de uma maneira absurda, nesse sentido, a cultura jovem contemporânea vai contra a homogeneidade de estilo e as microtribos são cada vez mais comuns servindo como um refúgio de tradições e compromissos sociais e uma maneira de interagir com aqueles que compartilham das mesmas formas de pensar. Seja lá qual for a causa, o que leva esses grupos a se formarem ainda continua o mesmo, o mais instigante é notar como o efeito que elas produziram ainda permanece pulsante.