CARNIVAL

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TRICOTED WORLD

Saturados de projeções e materiais intocáveis, escultures, ilustradores e estilistas retiram das práticas artesanais como o crochê ou o tricô a matéria orgânica, pronta e colorida para criar objetos, ambientes, instalações e roupas que surpreendem por toda a técnica por traz da maneira como foi tramada.

Melissa Loop sabe usar materiais de maneira bem inusitada em  instalações e esculturas. Em suas ideias ela explora as fantasias que o homem cria no decorrer da vida, tanto no mundo real como no digital. “Até recentemente eu fui pintando paisagens ambíguas de ilhas utópicas que estão em um estado constante de formação e implodindo sobre si mesmo. No entanto, o meu mais novo trabalho explora ideias mais específicas de utopia, uma vez que está diretamente relacionado à nossa pesquisa e tentativa de perfeição nas cidades, parques, destinos de férias, e as paisagens virtuais. Estas pinturas funcionam como metáforas para nossas simulações dos habitats naturais, estruturas sociais e ambientes consumistas.”

Tanto nas pinturas como nas instalações se pode notar a explosão de cores nos materiais que usa, como tecidos, luzes neon e até mesmo lápis de cor. Traços ultramodernos carregando características das interfaces digitais contrastando ao mesmo tempo com rabiscos que lembram traços infantis ou primitivistas. As paisagens são influenciadas pelo ambiente marítimo, praias e lugares procurados para o descanso de férias e de outro lado o hipercolorido dos jogos, vídeos, animação digital e da publicidade japonesa.

A sobreposição das formas serve para criar uma espécie de ilusão na pintura, deixando a composição confusa, além de colocar em evidência as fantasias consumistas. Lembram os ambientes mais procurados pela sociedade capitalista, em especial os parques de diversões infantis, lugar propício para aflorar a compulsividade e as utopias, se transformando então em um refúgio da realidade.

Agata Olek começou seu trabalho investigando malhas e a partir de suas descobertas então cria esculturas inacreditáveis.  De característica nômade, o seu trabalho muda de um lugar para o outro, migrando os fios para espaços inusitados, e preenchendo suportes triviais que nos cansam a vista diariamente, com as cores explosivas dos fios e os padrões cheios de vida do crochê. Para chegar a expor dessa maneira, Olek estudou a fundo a ciência da cultura, se aprofundando nas investigações sobre os fios e na crítica da produção industrial, com isso, cria em suas manifestações de espaço público um feedback para a realidade econômica e social das grandes cidades.

“Um ciclo após um circuito. Hora após hora minha loucura se torna crochê. A vida e a arte são inseparáveis. Os filmes que eu assistir enquanto crochê influenciar o meu trabalho e meu trabalho determina os filmes que eu selecionar. Eu crochê tudo o que entra no meu espaço.  Às vezes é uma mensagem de texto, um relatório médico, objetos encontrados. Existe a desvendar, a parte efêmera do meu trabalho que nunca me deixa esquecer a vida limitada do objeto de arte e o conceito de arte. O que tenho a intenção de revelar? Você tem que puxar o final do fio e desvendar a história por trás do crochê.”

Joy Kampia se entrega ao seu impecável gosto pela comida e transforma suas esculturas, pratos e fast food tricotados em apetitosos vestidos. A maioria das suas esculturas são as comidas de maior nível calórico e que mais despertam desejo no imaginário das crianças: hamburguers, tortas, sorvetes e pizzas.  O mais divertido de se entregar a essas roupas-esculturas é imaginar estar vestido de malha de peru, vestido de sundae ou colares de rosquinhas gigantes por uma prática artesanal que ultrapassa gerações e ainda assim conserva um forte apelo estético.

Sarah Moli Newton Applebaum impressiona na maneira em que usa a cor em suas esculturas feitas de tecido, fios e cobertores. Os padrões geométricos se tornam em abstração sugerindo um ambiente acolhedor só possível de ser encontrado em um espaço utópico de felicidade e sonhos induzidos.

Os figurinos são inventados a partir de personagens que ela inventa, aqueles que por sua vez aparentam serem fofos e inocentes e ao mesmo tempo intimidam por suas fisionomias nada amigáveis.

Sarah vasculha brechós em busca de cobertores baratos de padrões psicodélicos para costurar os seus enormes “metablankets”. Além dos cobertores, ela também customiza peças inacabadas reconfigurando suas cores em novos motivos. Não obstante, ela confessa que o que realmente a chama atenção nos cobertores não são o tricô mas sim a combinação “insana” de cores.  O que é revelado na junção entre a criatividade psicodélica e intuitiva das cores com a escolha “mundana” de um cobertor.

“A cor é tudo o que vemos e usamos para entender nosso entorno.  E isso está ligado ao sentimento tanto a emoção. Meu trabalho é muito primário . Eu trabalho com a cor, o tátil, arquétipos da forma e da paisagem, a mitologia.  Meu processo é intuitivo e com base em uma exploração de tudo o que me interessa em conjunto com a exploração dos materiais com que estou trabalhando.Eu realmente gosto de fazer coisas.”

Anne Larson é estilista e usa o tricô em seu ofício de criar roupas  com a ajuda de seu amigo tecelão Susan Johnson. Os dois criam peças com lindos padrões geométricos e multicoloridos. A escultura dessa vez pede o corpo como suporte para se acomodar e se mostrar deslumbrante.

Olympia Le Tan faz um incrível trabalho bordando capas de discos, livros e afins que deixam dúvidas de serem realmente artesanais. O pior é que de fato são e o que é de derramar lágrimas por não poderem ser reproduzidos na mesma proporção daquilo que é o que elas revestem.

Prontos para usar ou feitos à mão, o material desses artistas são preciosos não  só por pertencerem a qualquer categoria de arte decorativa, nem pela reação que provocam em quem olha e pensa “nossa, alguém teve a coragem de fazer ponto por ponto e a paciencia de repetir isso infinitas vezes” , mas por onde se infiltraram e seu valor de tradição que carrega, seja nos objetos mais banais ou  nos locais públicos que invadem.

SINTETIZADORES TEXTEIS PARA NOMADES

Para ter uma banda hoje já nem é mais preciso ser um instrumentista, nem entender de teoria musical, basta vestir a tecnologia encantadora que incorpora os tecidos. Já podemos pensar em  roupas para nômades emitindo barulhos para algum tipo de sinalização, ou melhor, roupas musicais, roupas-bandas, roupas-instrumentos, ou roupas que quem está a fim de montar uma banda veste e a própria roupa emite o som conforme o movimento do corpo.

Parece difícil de imaginar, mas quem pensou nisso primeiro foi a dupla sueca Jeannine Han e Dan Hiley, responsáveis pelo projeto que desenvolve módulos baseados nos tecidos e nas interfaces eletrônicas sensoriais que controlam e sintetizam a música conforme os movimentos corporais. Ou seja, eles incorporaram sensores de toque, parecidos com esses usados nas telas de toque de iPod, no tecido, daí um microcomputador AVR com o código de detecção do toque converte os gestos da mão do usuário ao longo da peça em comandos geradores de música, os quais produzem o som.

A área têxtil sensorial se estende desde o pescoço até a região da cintura e através dela é possível criar sons de harpa, piano, guitarra e qualquer som já inventado até agora na música. O instrumento têxtil cria então uma ligação natural entre movimento e som que permite ao usuário compor e improvisar o que quiser de maneiras alternativas, o que é quase impossível de se fazer com os instrumentos tradicionais.

Outra coisa importante de se observar é a preocupação que Jeanine teve com o aspecto estético das peças, parecendo que são mesmo feitas para nômades, de modo que são criadas  para apresentar personagens que caracterizam essa mudança de ambientes, tão típica dos nômades e até mesmo das bandas. Foram criados quatro personagens que integram uma espécie de banda mesmo  e segundo os autores do projeto, esses personagens foram criados  a partir de reflexões sobre a autotransformação, a transcendência, as curiosidades, e tudo aquilo que  os indivíduos aspiram.  Daí então a intenção é que a apresentação  final desses personagens com toda a performance montada vai acontecer num contexto de uma obra de arte ritualística em um ambiente com controladores de sons, o que vai servir para reforçar os laços sociais entre esses nômades performáticos.

Pelo vídeo é possível ter uma noção mais clara disso tudo, apesar de ser bem curto, mostra até onde isso pode ser tão incrível.

Para Jeanine “a roupa é para uma viagem nômade que deseja se comunicar com outros nômades, por isso o som é inspirado pela natureza”, o curioso é que ao mesmo tempo que essas peças são inspiradas no nomadismo, tem um aspecto primitivo e resgata alguns gestos típicos dos nossos ancestrais, como emitir sons para dar sinal ao outro, elas também levantam questões de como os objetos serão produzidos no futuro. Pois, o desafio que se mostra é como desenvolver uma tecnologia que torne mais fácil a produção dessas roupas futuramente. Mas se inseridas de fato no mercado, como vai ser andar pelas ruas emitindo vibrações? Como os músicos vão encarar isso tudo? Como as bandas vão se comportar e qual será o destino dos instrumentos musicais?

ORIENT IS FULL OF LOVE

O Oriente é o lugar mais inspirativo do mundo. E é de lá que se extrai as padronagens, estampas, desenhos, mantos e quimonos mais incríveis do universo. Ao mesmo tempo que é rico em diversidade étnica e cultural é simples no traço, na síntese gráfica e na composição dos desenhos. Tudo repleto de tradições místicas, religiosas e simbólicas que carregam distinções sociais feitas por meio do vestuário.

Um dos tradicionais exemplos dessa distinção no vestuário asiático foi quando os guerreiros nômades “manchu” derrubaram a dinastia ‘Ming’, em 1644, e fundaram a dinastia Ch’ing, que assumiu a maior população do mundo, a maior burocracia e um dos tribunais mais luxuosos de toda a existência. A fim de facilitarem uma transição ordenada, que protegesse contra a política de assimilação total, os manchus se ajustaram em uma burocracia de estilo chinês e adotaram uma religião budista, ao mesmo tempo, à aplicação de certas diferenças étnicas e culturais. Uma das mais significantes distinções feitas foi a do vestuário tribunal. Os mantos oficiais do tribunal sofreram alterações em seus volumes, no corte, de mangas largas, na cor, que passou do vermelho para o amarelo e nas botas de montaria, típicas de sociedades nômades guerreiras durante as dinastias Ch’ing e Ming. Esses mantos representaram um dos sistemas mais suntuosos e simbólicos já desenvolvidos para uma veste de oficiais, junto à cor e os acessórios eles eram usados por todos os homens e mulheres associados ao trono do dragão e traçava as distinções entre a nobreza, os títulos oficiais e o status social.A cor amarela era reservada para as roupas usadas pelos cargos mais altos, como o imperador, a imperatriz, a imperatriz viúva e o futuro herdeiro do trono. A outra maioria dos nobres e funcionários eram obrigados a usarem marrom ou azul nas vestes num tipo de veste semiformal.  A classificação exata de um oficial de justiça podia ser determinada pela cor da sua roupa, pelo desenho simbólico do dragão e pelos materiais que eram usados para decorar seus acessórios: como a pedra que era usada como remate no chapéu e os crachás com animais desenhados.

Na China, os ‘Miao’ são uma das várias minorias étnicas que vivem nas áreas montanhosas subtropicais do sudoeste do país. Diferentes grupos, por milhares de anos, desenvolveram tradições culturais que estão se tornando cada vez mais reconhecidas por sua extraordinária riqueza artesanal de têxteis e jóias de prata. O trabalho com tecidos inclui bordados, brocados, batiks e enfeites à mão que os tornaram conhecidos no mundo todo. A chapelaria que eles confeccionam é de abismar, toda feita de prata. Uma variedade sem fim: flores de cabeça de prata, argolas de prata, pinos de prata, lenços de prata, turbantes de prata, chapéus esvoaçantes de prata, grampo de prata, pente de prata, brinco de prata e assim por diante. É uma região de fantasia onde a mitologia, a técnica e a habilidade afirmam sua identidade cultural e expressão estética.

Até recentemente, algumas dessas aldeias étnicas remotas foram isoladas das outras populações chinesas “medernizadas”, mesmo assim, no entanto, a avassaladora modernização que vem potencializando economicamente a China penetrou em alguns distritos minoritários, como no Guizhou, Guangxi, Yunnan e Guangdong. Com efeito, essas variações econômicas resultantes que também se associam as sociais e educacionais já começaram a corroer a aparência e o uso desses incríveis trajes tradicionais de festa usados pelos ‘Miao’ e pelos outros grupos étnicos. O que é lastimável.

Kenzo Takada já mostrou ao longo de sua carreira que sabe como ninguém olhar para essas culturas, minorias étnicas que povoam o rico e vasto território asiático, traduzindo para o vestuário contemporâneo, para os corpos ocidentalizados.  Kenzo se inspirou em todas as etnias e compôs peças que sobrepunham camadas dos pés à cabeça com modelos que lembravam bonecas russas até ícones religiosos.

Com a sua marca comemorando o 40º aniversário no ano passado, o diretor de criação Antônio Marras homenageou Kenzo nas passarelas com as suas bonecas nômades  representadas pelo exagero da mistura de cores e estampas extraídas nos grupos étnicos de todos os cantos do mundo. Exótico e absurdamente incrível, essa coleção fundia a rica história da marca com a cultura da região de Sardenha, com tradicionais quimonos japoneses decorados com bordados junto com silhuetas repletas de camadas sobrepostas de tecidos estampados, turbantes enormes e luvas que ilustram esse vibrante casamento cultural de etnias.

Algumas estampas lembravam as ondas do gravurista japonês Katsushika Hokusai, um dos principais especialistas em pintura chinesa no Japão. Apesar de toda a extravagância dos modelos tradicionais e exóticos dos grupos orientais e do vestuário asiático, nos desenhos é possível notar uma forte simplificação de traços e o uso muito aprimorado da cor. O que vêm do uso da xilogravura como uma das principais técnicas artísticas contribuindo para essa síntese gráfica tão características na arte japonesa. O mais interessante de olhar pra essas culturas é então perceber o quanto suas tradições são tão ricas e decorativas enquanto a estética artística oriental é totalmente simples e gráfica. Assim tendo elas como ponto de referência, se pode criar peças incríveis em mantos, quimonos e aventais cheios de camadas de tecidos combinando com estampas e detalhes gráficos bem simplificados. Vindo do Oriente tudo é permitido.

A Grande Onda de Kanawaga, 1930.

Oshiokuri Hato Tsusen no Zu, 1805.

 

 

 

PADRONAGENS COMPLEXAS

Padrões significam um monte de coisa, mas quando se fala de design o mais provável é que seja algo bidimensional que foi abstraído de formas da natureza. É o que mais se vê desde os desenhos das civilizações primitivas até no contemporâneo design de superfícies, são acima de tudo desenhos que se relacionam de alguma maneira, seja repetindo suas formas ou encaixando-as.  O que esses padrões ou padronagens mostram são motivos que se originam na natureza e que são produzidos pela própria vida e a partir daí são abstraídos e ganham uma nova aparência simplificada.

Asao Tokolo é mestre em criar peças construídas em padrões que se juntam, como um mosaico, mas no caso a genialidade está no fato de que os padrões podem ser encaixados de todas as maneiras, que sempre vão juntar o motivo e nunca irá se repetir. É uma tentação incontrolável de girar as pecinhas interminavelmente, e em todas as vezes, cada aresta poderá ser combinada com as outras. Formado em Ciência da Computação, ele estuda e calcula a forma do desenho de maneira a transformá-lo com essa flexibilidade de posições.

Nesse esboço que ele faz para desenvolver um imã, ele se baseia em padrões arabescos tradicionais japoneses popularmente lá conhecidos como Karakusa, que significa “plantas estrangeiras” ou “liquidações de plantas”. Isso porque há mais de 1.200 anos atrás, esses arabescos chegavam no Japão através da Rota das Especiarias. Eles vinham de distantes terras do Oeste, como Pérsia, Grécia, Índia, Arábia e Egito e a maioria insinuava formas vegetais, de flores e folhagens. Daí então os japoneses começaram a usar esses padrões nos seus impecáveis quimonos , nas roupas de cama, em tecidos e na cerâmica.

Tokolo não faz nenhum tipo de milagre, é pura matemática em cima do padrão formal espiral do Karakusa. O interessante é que o Karakusa não passa de uma forma abstraída da natureza que se transforma em elemento a ser moldado, pelo incrível trabalho de estudo de design por qual passa. Em sua análise, primeiro são estudadas as características particulares de cada fragmento do desenho, para depois serem examinadas as características gerais. E assim, finalmente, é como se olhássemos como as partes da forma constituem o todo. Essa é a lógica que o torna um padrão.

Padrão de Asao Tokolo aplicado na roupa

O Grupo Spam Guetto conseguiu encontrar alguma utilidade para as mensagens que inundam as caixas de e-mail diariamente, os spams. A caixa de spam se torna então o mais impressionante material de inspiração para os padrões que serão construídos com mensagens pornôs, pirataria, serviços financeiros e todos os tipos de ilegalidades possíveis. Essas mensagens logo vão decorar papéis de paredes, luminárias e embalagens. Total futurístico: reciclagem virtual!

As formas de base, a escrita nesse caso, não são extraídas da natureza, mas de elementos gráficos eletrônicos, mas as que formam o desenho final, escritas em folhagens, correntezas nos levam as formas naturais. As mensagens são inseridas em um único formato de linhas, a partir daí, são construídos desenhos e os motivos que irão se transformar em padrões. Se observarmos uma parede de longe com esses motivos, mal nos damos conta de que se tratam de mensagens eletrônicas insanas, percebemos primeiro os desenhos a forma geral, só depois quando nos aproximamos que notamos o que constitui cada parte. Mais uma vez esse padrão parte das características gerais para as partes específicas da forma.

Tatiana Plakhova é uma designer russa formada em psicologia, que cria padrões incrivelmente complexos com pontos, vetores, linhas e gráficos. As imagens criam um efeito de profundidade que surge da relação entre as linhas e as cores, que geram efeito de tridimensionalidade. São extraídas de cenas capturadas da natureza geológica: abismos, acidentes geográficos, montanhas e rios e da biologia: visões de microscópio, células, como quando uma gota de água pinga no cílio e se olha pra luz. Essas figuras da biologia são difíceis de classificar, são formas naturais, mas parecem abstratas. Além de que, ela também abstrai em imagens surpreendentes de ritmos musicais, como aqueles gráficos que aparece quando se fala no microfone do computador ou nos softwares de música. Padrões que partem de imagens simples da natureza e recebem o aspecto abstrato, se modificando em imagens complexas, gráficas, que parecem que foram retidas da astronomia ou de redes digitais, mas na verdade são desse jeito pelo tratamento que passam ao se transformarem em padrões.

Padrões biológicos: tecidos, células e bactérias


Padrões geográficos: mapas e imagens capturadas por satélites

Padrões geológicos: rochas, abismos e montanhas

Padrão musical: ritmos e frequências em ondas sonoras visuais

Padrão abstrato: vetor e linha


 

 

 

 

 

TRANSMUTAÇÕES

Hylozoismo é o termo filosófico das coisas materiais, de tudo aquilo que possui vida, ou que é inseparável dela. Assim, pode ser entendido como uma doutrina materialista, a qual Thomas Hobbes defende como um tipo de ateísmo hylozóico, o qual atribui vida à matéria. Além de Hobbes, Spinoza também investigou o hylozoismo, no entanto, não só como uma doutrina materialista, mas combinando esta com um tipo de hylozoismo panteísta, que tem como finalidade manter o equilíbrio entre matéria e mente. Ele considera então que uma força de vida ou força de vida vai além de uma força viva no interior, atingindo também toda a matéria. No século XIX, Haeckel chegou a confirmar uma unidade de natureza orgânica e inorgânica derivada de todo as ações de ambos os tipos de matéria das causas e das leis naturais. Então, a sua visão de hyzoloismo vai contra todo o curso usual já abordado, quando afirma que as coisas vivas e não-vivas são, essencialmente, as mesmas, eliminando todo o tipo de distinção entre esses dois conjuntos e determinando-os como se eles comportassem seguindo um único conjunto de leis. Hoje, o hylozoismo científico vem se modificando, e indo bem além das teorias filosóficas, traduzido visualmente para a arquitetura, neurobiologia e instalações artísticas. A tendência atual tem sido muito criticada como uma visão mecanicista do mundo, mas ela vai muito além disso, pois pode-se usá-la como uma forma de descrever as mudanças de estado, tanto das coisas materiais, como na mente, como faz Philip Beesley.

Beesley é um dos que mistura todo esse complexo filosófico hyzoloísta com tecnologia e o que é tramado por trás do que vestimos, criando sistemas estranhos e absurdos que deixa a plateia perplexa penetrando em um ambiente surreal e totalmente interativo. Esses sistemas são redes feitas de malha de acrílico e matrizes de componentes fabricados digitalmente equipados com microprocessadores. São estruturas que se movem por serem tecidas em sensores, os quais respondem aos sinais de quem passa e se desloca no interior desses ambientes.

Ele já é um experiente em abordar questões que vão além da arquitetura, fazendo explorações nos magníficos e intricados tecidos biológicos, se aprofundando na ciência e na tecnologia e para melhorar, combina isso fazendo uma delirante combinação com a arte e o artesanato dos tecidos e geotexteis interativos. Geotêxtil quando se trata de tecido é o material que vêm do entrelaçamento de fios, filamentos, fitas e outros componentes – como no caso ele usa madeira, plástico, aço e elástico (materiais geológicos) – seguindo as direções trama e urdume. Depois ele incorpora a essas estruturas outras como sistemas mais autônomos, que dão um aspecto alielígena em todo o cenário, o que permite ao passante assemelhar isso às funções de um sistema vivo, à inteligência da máquina, aos movimentos de deglutição e as trocas metabólicas. Viver essas trocas químicas é concebido como um estágio de auto renovação das funções que enraízam dentro de nós mesmo e  dessa alucinante arquitetura.

Beesley diz que o que o inspira a criar essas estruturas complexas são  práticas que ultrapassam gerações e culturas no mundo inteiro, como o tricô, a dobradura o corte e a costura. Um domínio tão artesanal que é capaz de gerar uma confusão visual que parece ser fictícia. Para ele, fazer coisas materiais é construir, da mesa forma como é tricotado um suéter. A partir daí se pode refletir sobre as questões do hylozoismo e toda a materialidade tecida diariamente e até quando essa materialidade chega ao ponto de ser sobrenatural.

As instalações possuem frascos que contém protocélulas, as quais permitem a formação de habitats dentro da matriz, gerando novos organismos e mostrando as hipnóticas mudanças físicas e químicas que passam no próprio ambiente. Os geotêxteis, então, são usados como um tipo de matriz que permite a vida e todo o processo de transmutação dentro desses ambientes. Ambientes que incomodam, perturbam e que estão se transformando a cada segundo, levantando questões éticas muito importantes para serem refletidas.

O nome do projeto é Hylozoic Ground, não por acaso, ele se firma sobre a crença de que toda matéria possui vida, usa elementos da do entorno que se acumulam diariamente no solo híbrido, assimilando-os com as funções do sistema que conduz a vida. Existencialista, fictício, artesanal, profundo e instigante, esse projeto nos ajuda a perceber mudanças que demoram séculos, milênios para acontecer no ambiente, e outras que ocorrem conforme o processo de evolução das descobertas que surgem da mente humana.

Hussein Chalayan, em 2007, experimentou assimilando as transformações que acontecem no ambiente, com vestidos que se transformam. Um impecável trabalho aprofundado no que compõe os tecidos, no uso de materiais inovadores e na estrutura customizável da roupa. Assim como Beesley simula em suas instalações as mudanças no entorno do ambiente as transformações físicas e químicas,  Chalayan as mostra sobre o que envolve o corpo, usando as propriedades do tecido, como os fios se entrelaçam e materiais que o permite mover de uma região para outra, para mostrar como a roupa se transforma no corpo no decorrer do tempo. O que acontece, por exemplo, desde quando é confeccionada até durante o seu uso – como ela desgasta, envelhece e apodrece. E assim ele mostra vestidos que seguem estilo do período de 1906-1916 se modificando até 1926, enquanto o outro que era de 1926 e evolui ate 1936-1946, e assim por diante. O que deixa evidente uma transformação que naquele momento é instantânea mas que insinua as mudanças que demoram décadas para acontecer no vestuário.

A arquiteta francesa R&Sie, explora passado e futuro através das mutações do ambiente, esse ano exibindo um polêmico projeto na Bienal de Arquitetura de Veneza, o qual se move sobre os extremos da natureza e da psicologia humana. A crítica parte da paisagem geológica e dos experimentos tecnológicos  que rodeiam a vida contemporânea, mostrando por meio de amostras de substâncias a degradação proveniente da economia pós-industrial. A instalação partiu de um laboratório de pesquisa sobre a luz noturna, que analisa a adaptação ao escuro a fim de reduzir a poluição luminosa urbana, incluindo pedras de urânio controladas por um contador que indica a degradação do ozônio na origem de algumas patologias humanas. As pedras de urânio vêm diretamente da intensidade dos raios UV que atravessam a estratosfera e o seu magnífico efeito brilhante vai aumentando na medida em que a camada de ozônio vai desaparecendo. Assim, esse ele serve como um marcador de poluição, indicando como os efeitos das economias pós-industriais estão destruindo a camada de ozônio na estratosfera.

Componentes de pozinhos brilhantes com sensores de radiação.

Seu instigante projeto, além de articular com os perigos e incertezas do futuro, também retoma as barbáries cometidas no passado através do uso dessas substâncias perigosíssimas. Lembrando que o urânio está diretamente ligado às atrocidades de Nagazaki e Hiroshima e a todo os eventos trágicos que comprovaram o mal uso da ciência para a barbárie. Deparando com esses componentes e seus visíveis efeitos logo criamos uma noção das maneiras como eles podem ser manipulados, seja como elementos visuais de criação que nos deslumbram, pelos seus incríveis efeitos luminosos, ou como objeto de estudo científico, que nos apavoram, por estarmos em um ambiente totalmente desconhecido e perigoso.

Falando em ambiente perigoso, a instalação ainda faz referência a perigosa experiência de pessoas que se encontram em lugares desconhecidos, como tão bem abordada na produção de 1979 de Andrei Tarkosvky. No filme, um meteorito cai na terra e dizima uma cidade inteira, criando um zona desconhecida e misteriosa, conhecida como “A Zona”,  nessa área possui uma sala chamada “Sala Wish” e é lá que ocorre um tipo de cerimônia que ajuda um grupo de pessoas a se conhecerem. Essas pessoas não querem saber o que existe por trás disso tudo, apenas querem entender que tipo de experiência é essa que os prende no tal ambiente perigoso e desconhecido.

“Conhecer alguém significa enfrentar o desconhecido, o estranho, ou mesmo enfrentar a sua própria repulsa ao negociar um ambiente desconhecido. Isso não é nem confortável, nem agradável, significa que a passagem por um espaço heterotópico, onde ela em si é a única maneira de se definir e se relacionar com o que já está lá.  Isso implica a consideração dos riscos e da determinação de se ou não continuar com ele. Reunião não significa mergulhar em um carnaval de máscaras, ou encolhido em um quarto escuro, como se estivesse em uma cerimônia destinada exclusivamente por uma soma de individualidades. Significa ousar-se no risco do desconhecido juntos.”

Esse trabalho gráfico incrível acima faz parte dos screengrans projetados na performance Anatomia dos mundos imateriais, de Matthew Stone. A abordagem de Stone, conceitualmente, vai contra toda a crença hylozoísta, mas esteticamente tem uma forte semelhança com o trabalho de Beesley, pelo menos nessas hipnóticas imagens gráficas que vão sendo projetadas em vídeo em compasso com a ópera e a dança em pulsos eletrônicos.  E ela vai contra a doutrina materialista porque é conduzida por uma viagem espiritual xamânica, dentro da qual existe estados alterados de consciência que permite aos indivíduos terem acesso ao mundo imaterial. Stone explica que essas imagens com pontos luminosos, que lembram espaços imaginários e ambientes alienígenas (como os de R&Sie) se relacionam com as jornadas da sua própria mente. De certa forma, essas imagens servem como uma ajuda para fazer o público fechar as portas da lógica que insiste em dizer que “Você está apenas imaginando”. O que como ele indaga “Claro que você está apenas imaginando, mas o que é imaginação?”.

O fato é que Stone aborda questões que também dizem respeito a transições e a mudanças, só que dessa vez não no ambiente mas na mente humana. Os elementos teatrais que ele usa, como as imagens gráficas animadas e os sons eletrônicos servem como importantes ferramentas para que aqueles que assistem e vivenciam esse tipo de experiência, possa entendê-las como ferramentas do próprio consciente.

Eu não estou tentando fugir para um mundo de fantasia que não existe. Eu estou dizendo, que  o mundo real é mais complexo do do que aquilo que podemos entender, em termos puramente lógicos. Acho que precisamos de uma compreensão poética do mundo.

“Para a maioria, mudança é inimaginável até que aconteça.”

I HAVE IT YOU HAVE IT WE HAVE IT LETS HAVE IT!